quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Respeito o Mar


Respeito o mar
Como um branco a polícia
Uma mulher o ginecologista
Ou o agricultor respeita o INSS
Como um astronauta

Ouço seu barulho inicial de cascata semovente
E seu finalmente
Crepitar de espuma
Óleo fervente que frita
Morrendo na areia da praia

Respeito

Olho pro pedacinho de maré
Que oscila
Ora o alcança a água
Ora lhe foge

Quantos copos de líquido ali não cabem
Quantos palmas em concha
Quantas tigelas
E baldes, mil baldes
E mais
Muito mais
Quantas cisternas
Caminhões-pipa
E toda a água infinda desse abismo salobre

Se cada litro de água
Que diviso nesse ponto pequeno
Fosse um grão de areia
Faltariam praias
Faltaria areia

O cão se joga no oceano e nada tranquilo
Nossa prima, a baleia, não vive fora do ambiente aquático
E quantas Joanas não choraram por seus filhos
Tragados ainda crianças por Netuno ou Iemanjá?

Respeito
Como um paraquedista
Como um bandido sua vítima
Respeito o mar

terça-feira, 30 de junho de 2015

Café da Tarde

Quando bebo café
Não constrinjo os lábios
Beijo a xícara
Em homenagem a essa droga ancestral
Fumo um cigarro
Como se mamasse um seio
Do mesmo jeito que a seiva
Suga da terra os nutrientes
E se
Condoído em um leito
Engulo pílulas e comprimidos
Devoro-os
Tal postos
De uma caça sagrada

O amor
A família
E a medicina
Não passam de humanas criações
A desilusão
O rompimento
A morte
Seus inescapáveis resultados

Como o animal que mata
A flor que brota
E o trovão que relampeja
Eu sou gente
E gente sou
Porque bebo
Porque Fumo
E me entorpeço
E chapo

Aprecio
O aroma do café torrado
E o cheiro nauseante do tabaco

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Agir no não

Nada faço eu agora, só sentir.
Fácil ficar parado e só olhando.
Acho que quando levo minha boca,
Minhas mãos, a voz rouca – não agi

Nem preto nem o branco, nem escuro
Nem o claro, nem o muro, nem oito
Nem oitenta. Na vida não existe
Câmera lenta ou passo atrás, eu vi.

Mas, eu piso de novo o mesmo ovo.
Eu temo, eu gosto, eu choro, eu danço, sim!
Como eu danço! E minha alma enche.

E novamente, de repente, eu – bobo –
Me lanço à tempestade; para em mim
Cair - um risco! - o raio dos prazeres.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Gravidade Zero

A massa atrai a massa
A matéria cai sobra a matéria
O universo pesa
Suas botas
Esmagando a nossa testa

Nosso amor foi fácil
Como cair

O universo nos pesa os ombros
     Mas quando se cai
A gravidade é zero
Tudo contigo despenca
E nada é certo

Olha pra cima, amor, e contempla

As estrelas não estão pra iluminar o paço

Estão pra dar beleza ao nosso espaço