quinta-feira, 24 de julho de 2014

Naqueles dias

Naquele dia
Em que tudo acabou
Eu fui roubado
Levaram meus documentos
Levaram minhas notas de real
Tatearam meu bolsos
Seguraram meus braços
Impediram meu grito


Naqueles dias
O tempo não seguia os tapas dos ponteiros
Como se uma neblina fantástica formasse uma cúpula
Que igualava a todos
Pelo seu ar rarefeito e pesado
A gravidade era mais forte
E o cheiro das flores ácido e úmido
Naqueles dias


Naqueles dias
A natureza assaltou a história
Assaltou a fisicalidade da voz e do gesto
Do mesmo modo como assaltou-me a dupla de viciados


Naqueles dias
Sem ouvido pra ouvir nem voz pra falar


Que bom!
Não havia nada pra comunicar
Não havia mais RG pra me identificar
Porque a identidade acabou
No gás nebuloso da noite


Insuportável narcisismo
O reflexo da própria face
Nebulado pelo breu dos lamentos


Dormimos ali mesmo
Naqueles dias
No chão da capela fria
Partilhamos mais do que só uma memória


Mas a memória
Ele nos disse
É a pele que solta
De uma queimadura de sol
E
Naquele dia
O pôr-do-sol foi lindo

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