quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Ser Só

Ser só é um caminhar alienado
Dos passos que pisaram camaradas,
Das grades que prenderam condenados;
Das marcas que deixaram as granadas.

Tudo que aqui se faz aqui se sente,
Tudo no mundo, terra de ninguém,
Pra onde tudo vai, donde tudo vem,
É dirigido pela ação da gente.

Sozinhos somos um de cada vez.
Um grito tímido que nunca sai
Do plano das ideias, da vontade.

Sozinhos, só dizemos sim às leis,
À igreja, à pátria e a nossos pais.
É hora de juntarmos as metades!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Caçada

A seta do cupido
            Acerta em cheio minha libido aceta
     A meta do cuspido traço
É o vaso dessa dor que veta
O meu mote em reta linha
É que meu peito azeda todo amor que é flecha

O arco que se entesa
      Quebra
Eis a morte do Eros vil intento
      Meros ventos
            Desguiaram
O que visava o arco atento

Nego o choro patético dos pares
      Que se explodam as flores
            Que se afoguem nos mares
Essas drogas de amores

Mas
      Audaz
A mira das deidades nunca é falha
      Como a folha
             Precisa
      Só cai depois de seca
Após o reto tiro
      Fincado em minha alma
             O alvo-de-mim se atira
Na armadilha como a tola caça

sábado, 10 de agosto de 2013

Sexo dos Outros (II)

reformulação do soneto:


Frutificai-vos e multiplicai-vos.
Nesta terra de Amores, neste Éden,
Nada mais justo que colher os frutos
Que pedem nossa carne e fantasia.

Sex Shop, Peep Show, com salas exclusivas.
Lady Gaga. Entrevista na Playboy.
Estupro pay per view no BBB.
Redtube, Sex and the City na TV.

A feira do pornô está montada!
Impossível, porém, o seu produto,
Do que compro, pro meu consumo é nada.
Meu gozo só reflete dos atores
O coito que é fingido, impróprio, estulto.

E minha cama? Segue esvaziada.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Se surreal fosse o poema
Inventaria um fonema novo
Pra organizar como um matema
A desordem do real

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Devaneio Erótico

Impossível gravidade
Não escapo dos teus olhos
Uma ponte do Brooklin
Se constrói em nossos orbes
      Atravessar a ponte suspensa
      Romper-te as grades da etiqueta
Despir-te
      Premeditada e estrategicamente
Meter-te a língua aos dentes
E
      Quente
              Mordiscar-te o queixo
Ao pé do ouvido
      Aspirar teu cheiro
Sugar-te os seios e os mamilos duros
Beijar-te leve o ventre arrepiado
      Como se de gelo fosse a tua pele
Soprar-te
      A flor molhada
A tua mão cravada em minha nuca
Puxas meus cabelos num delírio

A mente que media e raciocina
     Pára
Agora só há os corpos
     Os sentidos
Famintos
     De ruídos
               De odores
                       De texturas
     Paladares

No fundo dos teus olhos
O fundo da tua carne

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


Vergonha

O coruja abria o olhão no canto escuro
Via tudo de soslaio
Se era hora
Vazava como um raio
Escorria pela Riachuelo
Desguiava a São Francisco
Cruz Machado

Conhecia por nome
Todas as mulheres e homens
Frequentadores das boites
Shows executivos
E as travestis que os machões fingem asco
Ele as tratava a trato fino
No respeito
Da fama das giletadas

Antártica era nove pila
A dose de Ypioca cara
As dançarinas ele observava
E bebia não muito
Cheirava
Vinte e cinco anos
Três de fim de noite
Raspa de tacho
Gato Preto
Olho vermelho

Nos botecos do centro velho
Você esquece que um dia o sol nasce

De cidadezinha
Interior paranaense
Aprendeu a ser homem na casinha
Aprendeu a beber de logo cedo
Família de doutor
Branquinho playboy
Esquece a sua classe
Num risco de pó

***

Código Civil
Domina suas partes
Geral, Família
Reais e Sucessões
Sabe seus caminhos
Controla sua arte

Seus professores
Seus coleguinhas
Mãos manicuradas
Cabelos de chapinha

Depois da Magna aula falsa
Golpes de café
Ar condicionado
No edifício do TJ
Atinge sua cota
Nota seus chefes
BMW no estacionamento
Decidem pelos outros
Pelo que não devem
Soltam, prendem
Sentenciam, matam
-- A vida não é fácil pra juiz.
Se fosse fácil era difícil
É muito mais fácil que isso

***

Não vê a hora de bater seu ponto
Acaba-se a jornada
O mundo vira de cabeça pra baixo
O céu escuro vira chão
O mar vira sertão
E as cortinas de veludo verde
Escondem outro mundo mais vivo
Roberto Carlos na jukebox
Rolmops
Sinuca

Damas da vida
Bebida
Fumo

Sabe que vai ser roubado
Mas deseja que lhe toquem
A carteira
O bolso
O fundilho
Nada vem de graça
Essa vida sem futuro
Essa vida de fudido
Depois formado: vai ser advogado
Porta-de-cadeia defendendo bandido

-- Minha desgraça é um conto épico.

O dinheiro não vale a mesma coisa
No ambiente do subproletário
Pra que otário quer dinheiro mesmo?
À noite os gatos todos viram pardos
A dignidade vale mais na boite
Há mais honra e não há hipocrisia
Pra que juiz precisa de salário?
Pra que?

Mas ninguém imagina
Ninguém do seu trabalho
Da aula, da sua rotina

Que ele é um vagabundo covarde
Que nega sua origem de classe
Que finge não ser de classe média
Mas é
Negado pelos seus pares doutores
Sente-se aceito por seus feitores noturnos

Que ser cifrão de malandro
É melhor do que a amizade rasa
Dos merdunchos da pequena burguesia

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Romance (canção)

Qual foi minha surpresa ao descobrir
Que teus lábios nos meus lábios
Faz meu olho sorrir
Teu perfume proibido
Tua libido
Meu prazer

Nossos dias
Nossas noites de ousadia
Nos meus dedos sinto arder

E trago junto do meu peito
Mil segredos que evaporam
São meus poros que se abrem
E a fome que devoram

Enquanto a terra gira eu corro dos homens
E chego até a lua com medo de cair
O meu amor de olhos cor de grama
Tua saborosa fantasia não me engana

No travesseiro deito minha cabeça pesada
Sabendo que eu irei dormir com minha amada
Companheira tua brasa e teu pijama chinês
Tão rápido acaba a minha vez