domingo, 23 de setembro de 2012

A Maleta de Dinheiro



(cenário: Curitiba apocalíptica, a merda voltou por todos os encanamentos da cidade)
Cena: A Maleta de Dinheiro

Bloqueadas as ruas por barricadas fecais
As moedas que caiam não se achavam jamais.
As notas de reais, imundas de coliformes.
Parece anos 80: inflação de taxas enormes.
Sem eletricidade para os caixas eletrônicos
Falta de dinheiro virou problema crônico.

No Edifício Costa e Silva, prédio da Embratel,
Na bosta, novos pobres armam escarcéu.
Rogam de mãos abertas em meio à merda
Por dinheiro, em nota ou em moeda,
Qualquer coisa pra comprar desinfetante.
A condição da higiene era alarmante.

Do vigésimo terceiro andar, a sorrir,
Alguns burgueses decidem se divertir.
“Essa ex-classe média avarenta, vamos quebrá-la!
Vamos encher de moedas essa mala
E jogá-la aos pedintes. Mas no meio da valeta.
Quem se jogar nessa imundice é o dono da maleta.
Um jogo, pois o medo da pobreza é mais intenso
Que o nojo da lama e do esterco infenso.”

Então, uma voz anuncia do terraço:
“Quem desejar ganhar dinheiro fácil,
Pegue a mala preta que se encontra na valeta.”

Aderindo à fantasia do espírito empreendedor
A pequena burguesia não conteve seu pudor.
Eis que cai a grana naquele lago fecal
E se enfurnam naquela lama, com vigor tal
Que nunca se viu num grupo de classe média.
Um sai da poça com a maleta cheia de merda,
Os outros na expectativa de talvez uma caridade,
Que nada, o tolo abre, e eis que a mala está vazia.
Que maldade, a disputa de todos é a diversão da burguesia.