quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Peregrino Apaixonado 13 - Passionate Pilgrim 13

Retradução do Passionate Pilgrim 13 de Shakespeare

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13

Beauty is but a vain and doubtful good,
A shining gloss that vadeth suddenly,
A flower that dies when first it ’gins to bud,
A brittle glass that’s broken presently;
__A doubtful good, a gloss, a glass, a flower;
__Lost, vaded, broken, dead within an hour.

And as goods lost are seld or never found,
As vaded gloss no rubbing will refresh,
As flowers dead lie withered on the ground,
As broken glass no cement can redress:
__So beauty blemished once, for ever lost,
__In spite of physic, painting, pain and cost.

13 

A beleza é, senão, vã dúbia cota,
Um lustro que se esvai assim com pressa,
Uma flor que cai morta assim que brota,
Uma vidraça que quebra assim depressa.
__Bem duvidoso, um brilho, um vidro, a flora;
__Ofusco, perda, caco, morto numa hora.

E qual coisa perdida nunca achada,
Qual brilho opaco nem polir dá cura,
Qual flor que cai sem vida ao chão murchada,
Qual cacos que cimento algum segura:
__Tal, manchada a beleza, errada sina.
__Embora arte, dor, custo e medicina


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Voo da Borboleta

Dizem que do bater
De asas de uma borboleta
Uma borrasca resulta
No outro lado do planeta
         Besteira
Este inseto de vida curta
É retrato reto
         Do romance
         E da sacanagem mais espúria

Raras voltas
Em primaveras únicas
Pousa leve
          Pluma
Em minha palma trêmula
A borboleta multicolorida

Na beleza daquele átimo
Mônada de destreza instável
No ápice do desfrutar
          Medo
Não voe embora
Não me deixe só a memória
De um instante que nem mais sei
Eis que fecho os dedos em pânico
          Gaiola egoísta sem culpa
          Meu desejo não conhece consciência
                    Seja lagarta seja pupa
Esperança chã
          A mariposa escapa
Como tantos amores
          E vai pulando
Entre as flores
          Na flora
Em sua breve existência
          De quarenta e oito horas

Só penso em suas cores
Miolo de larva coxa de pavão
Sua boca
         Nectarina
Cuja poupa
         No canto da boca
Lagrima
Seus olhos
         Dragas
Sua pele de dunas
         De finas areias
                 De lendas e praias
Seu organismo
         Prostado
Derrubado
         Como a estátua de Lênin
                   Em Petrogrado

Voou embora
Meu fim da história
E eu sei
         Sei muito bem
                   Tenho certeza
Aonde este inseto asqueroso
Esta mosca nojenta
Aonde ela vai
         Pra onde ela foje
Passou Antonina
O Oceano Atlântico
O Continente Africano
A península Arábica
Depois da Indonésia
        Lá, nos confins
Nos mais longínquos dos ermos sem fim

A borboleta se foi
Pro outro lado do mundo

Agora
Ela bate suave
Com dolo
         E malícia
Suas asas macias de inseto
Sabendo
         Ao certo
O que me espera

domingo, 11 de novembro de 2012

Era uma vez a bicicleta
Veloz
Aro de arame
Passara
(Facho)
Biciclera-se
Ladeira abaixo

domingo, 14 de outubro de 2012

O Rato Rico

Os ratos se rolam
De rir de você
Os ricos devoram as migalhas nos pratos
Nas latas de lixo, eles roem os pedaços
Ricos rateiam minutos na TV

Rico
Rato
Rico
Rato
O rei está pelado
Roma está em chamas
Ratazanas na TV

domingo, 23 de setembro de 2012

A Maleta de Dinheiro



(cenário: Curitiba apocalíptica, a merda voltou por todos os encanamentos da cidade)
Cena: A Maleta de Dinheiro

Bloqueadas as ruas por barricadas fecais
As moedas que caiam não se achavam jamais.
As notas de reais, imundas de coliformes.
Parece anos 80: inflação de taxas enormes.
Sem eletricidade para os caixas eletrônicos
Falta de dinheiro virou problema crônico.

No Edifício Costa e Silva, prédio da Embratel,
Na bosta, novos pobres armam escarcéu.
Rogam de mãos abertas em meio à merda
Por dinheiro, em nota ou em moeda,
Qualquer coisa pra comprar desinfetante.
A condição da higiene era alarmante.

Do vigésimo terceiro andar, a sorrir,
Alguns burgueses decidem se divertir.
“Essa ex-classe média avarenta, vamos quebrá-la!
Vamos encher de moedas essa mala
E jogá-la aos pedintes. Mas no meio da valeta.
Quem se jogar nessa imundice é o dono da maleta.
Um jogo, pois o medo da pobreza é mais intenso
Que o nojo da lama e do esterco infenso.”

Então, uma voz anuncia do terraço:
“Quem desejar ganhar dinheiro fácil,
Pegue a mala preta que se encontra na valeta.”

Aderindo à fantasia do espírito empreendedor
A pequena burguesia não conteve seu pudor.
Eis que cai a grana naquele lago fecal
E se enfurnam naquela lama, com vigor tal
Que nunca se viu num grupo de classe média.
Um sai da poça com a maleta cheia de merda,
Os outros na expectativa de talvez uma caridade,
Que nada, o tolo abre, e eis que a mala está vazia.
Que maldade, a disputa de todos é a diversão da burguesia.

domingo, 12 de agosto de 2012

Soneto das Cobras

Dos poetas apenas eu escuto
Bons elogios a todo sofrimento.
Dizem "o rompimento rompe o luto,
Aprende, pois, a amar teu sofrimento".

Mas quanto mais profundo eu desço em mim
E o lodo me sufoca e o peito invade,
A vida me convence, então, por fim:
Os poetas só falam inverdades.

Quem é que ri de ser um desgraçado?
Em que mundo haverá um tal delírio?

Do passado o que sobra são detritos.

Se a dor, como um veneno de serpente
Tivesse em si o agente de sua cura,
Só de cobras fariam as pinturas.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Paradoxo do Moderno


Instrumentalidade
Estrumentalidade

Mordernidade
Amordernidade

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Cálculo Impossível

Quase dormindo
ouço um rangido
vindo da Estante
 
Quantos rangidos
repetidos
terão havido
sem que ninguém lhes desse ouvidos?

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Vaticínio


Esparso
Salso farro
Libado
Néctar almo
Das hóstias cruento líquido
Ao mar derramado

Exsurge
Plutônia consorte horrenda
Emerge
O terrível Orco infenso

O sangue ata o mundo dos vivos ao dos mortos

Congregam-se os defuntos
Somam-se sedentos
Para sorver o rubro sangue

Aparecem:

Blanqui e Zapata
O cabra Virgulino
Claire Lacombe
E Bolívar peregrino
Kil-il-sung
Maozedong
Rigoberta Menchú
E Augusto César Sandino
Proudhon e Ludd
Elizabeth Dmitrieff
Fourier e Móises dos escravos do Egito
Zumbi dos Palmares
Gangazumba e Ho Chi Minh
Alessandra Kolontai
Engels e Karl Marx
Vladimir Lênin
Trotski, Anita Garibaldi
Fidel e Ernesto Guevara
Marighella e Patrícia Galvão
Robespierre
Spartacus
E Rosa Luxemburgo

Simulacros
Que se perdem em vento
Ao mero contato

Destroços amontoados
Todos derrotados
Vencidos revolucionários

Ruína sobre ruína
Mortos e fragmentos
Esses nomes do passado
São falecidos
Que não foram sepultados

A tempestade 
O vento empurra
Para longe dos insepultos coitados
É a tempestade do tempo
Que não nos deixa salvá-los

Do meio dos fantasmas
O cego Tirésias conheço
Prediz-me o excelso áugur
Ao longe quase sumindo
Estas tais sabedorias:

“Nem os que já expiraram estarão
A salvo se o inimigo nos vencer.
O sangue que nos une marca o encontro,
Relâmpago de Jove que interrompe
O momentum da História linear.
Devemos sepultar os de Saturno
Mortos, heróis de glórias carregados.
O Já que explode o tempo com Agoras,
Salta através dos ares como um tigre.
Pois não só é o Messias salvador,
Mas também do Anticristo o vencedor”.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Socialismo Cristão

Príamo beijou a mão do assassino de seu filho
Judas foi beijado pelo nosso Senhor traído
Davi, perseguido, poupou de Saul a vida
E quanto a Deng e Stálin e Tito?
Qual será, camaradas, a sentença proferida?
Mera justiça?
Ou perdão divino?

domingo, 8 de abril de 2012

The Passionate Pilgrim, O Peregrino Apaixonado

De William Shakespeare

III.


Did not the heavenly rhetoric of thine eye,
'Gainst whom the world could not hold argument,
Persuade my heart to this false perjury?
Vows for thee broke deserve not punishment.
A woman I forswore; but I will prove,
Thou being a goddess, I forswore not thee:
My vow was earthly, thou a heavenly love;
Thy grace being gain'd cures all disgrace in me.
My vow was breath, and breath a vapour is;
Then, thou fair sun, that on this earth doth shine,
Exhale this vapour vow; in thee it is:
If broken, then it is no fault of mine.
§ If by me broke, what fool is not so wise
§ To break an oath, to win a paradise?

III.

Não foste de teus olhos a retórica divina,
Contra a qual falta ao mundo um argumento,
Que convenceu meu peito de um perjúrio de mentira?
Votos por ti depostos não merecem sofrimento.
Prometi-me a uma menina; mesmo assim, eu provarei,
Sendo tu uma alma divina, não, não me jurei:
Meu voto foi mundano, teu amor, celestial,
Tua graça, a tendo ganho, me cura de todo mal.
Meu voto foi só bafo e bafo é só um gás;
Quando explora então a terra o justo Sol em seu calor,
Evapora-se o gás voto, mero voto de vapor,
Se está quebrado, se definha, então a culpa não é minha.
§ Que tolo não terá tanto juízo?
§ Se quebra um voto, ganha um paraíso.

sexta-feira, 16 de março de 2012

The Passionate Pilgrim, O Peregrino Apaixonado

Shakespeare, tradução de Yuri Campagnaro

XX.


Live with me, and be my love,
And we will all the pleasures prove
That hills and valleys, dales and fields,
And all the craggy mountains yields.

There will we sit upon the rocks,
And see the shepherds feed their flocks,
By shallow rivers, by whose falls
Melodious birds sing madrigals.

There will I make thee a bed of roses,
With a thousand fragrant posies,
A cap of flowers, and a kirtle
Embroider'd all with leaves of myrtle.

A belt of straw and ivy buds,
With coral clasps and amber studs;
And if these pleasures may thee move,
Then live with me and be my love.

Love's Answer

If that the world and love were young,
And truth in every shepherd's tongue,
These pretty pleasures might me move
To live with thee and be thy love.

XX.

Viva comigo e seja meu amor,
E as delícias, prazeres - que sabor.
Essas colinas, várzeas e campinas
E o abismo que no alto se confina.

Lá - sentados, nas rochas relaxados,
E os pastores cevando seus rebanhos.
Pelos riachos, os banhos, quedas tais,
As aves assobiam madrigais.

Lá - teu leito, farei ele de rosas
Com mil ramos de pétalas cheirosas,
Um diadema florido e um vestido
Com murtinho bordado em seu tecido.

Cinto feito de palha e botões de heras,
Com broches de corais e de âmbar haras.
Se todo esse prazer mover-te for,
Então viva comigo, meu amor.

Resposta do Amor

Ah, se jovens o amor e tudo isso
E fiel do pastor o compromisso,
Daí então iria não me opor
A junto a ti viver, ser teu amor.

Soneto 90 - Shakespeare, por Felipe Spack

Fiquei com uma "inveja boa" do Felipe Spack, que traduziu muito bem um soneto de Shakespeare, e terminei uma tradução que tinha começado fazia tempo, do Passionate Pilgrim. Primeiro publico o soneto traduzido pelo Felipe, no próximo post, a minha tradução.


Soneto 90 - Shakespeare

Se vais me odiar, faze-o agora
Que o mundo minha morte anuncia.
Alia-te à Fortuna sem demora;
Não aguardes o fim desta agonia.
Não venhas, quando o meu coração
Estiver são, reabrir suas chagas
Não deixes que à noite de trovão
Se siga uma chuvosa madrugada.
Não esperes o fim, para deixar-me,
Da mesquinha sequencia de minhas dores
Mas faze-o agora, e deixa provar-me
Da fortuna o poder e os horrores.
Então outras formas de dor, amada,
Perante tua perda serão nada.

Then hate me when thou wilt; if ever, now;
Now, while the world is bent my deeds to cross,
Join with the spite of fortune, make me bow,
And do not drop in for an after-loss:
Ah, do not, when my heart hath 'scoped this sorrow,
Come in the rearward of a conquer'd woe;
Give not a windy night a rainy morrow,
To linger out a purposed overthrow.
If thou wilt leave me, do not leave me last,
When other petty griefs have done their spite
But in the onset come; so shall I taste
At first the very worst of fortune's might,
And other strains of woe, which now seem woe,
Compared with loss of thee will not seem so.

sábado, 21 de janeiro de 2012

O Sexo dos Outros

Frutificai-vos e multiplicai-vos.
Nesta terra de Amores, neste Éden,
Nada mais justo que colher os frutos
Que pedem nossa carne e fantasia.

Sex Shop, Peep Show, com salas exclusivas.
Lady Gaga. Entrevista na Playboy.
Estupro pay per view no BBB.
Redtube, Sex and the City na TV.

Na véspera das núpcias, não contemos,
De nossa própria pele despojamos
Delírios ejetados no lençol.

No mercado pornô, há um jeito só:
Não consumo o que compro; pois é o sexo
Dos outros que virou mercadoria.