terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Balada da Espera

Quilômetros e léguas, longas milhas,

Mesmo sem entender bem as medidas,

Sei que estamos além do ponto máximo

Donde o braço alcança, local exato

Que nos impede uma oportunidade

De uma proximidade, de um abraço.


Cada dia parece a eternidade,

Como Shakespeare dissera certa via,

As horas são somadas aos minutos,

Cada qual, nessa ausência, se assemelha:

Um minuto – é como uma lua inteira.


A generosidade concentrada,

Entretanto, – tesouros que retemos,

Segredos do poder da humanidade –

Permitem que se rompa a regra dada,

Que sejamos capazes té de extremos:

Voamos, apesar da gravidade.


Assim também sucede a nós, amantes,

Dotados dos corretos instrumentos,

Atracados a nós na loja à crédito,

Que estupendo! A boutique nos garante:

Quando a sós desejardes um momento,

O timbre por satélite anda inédito -

Qualquer palavra que um pronunciar

Chega ao outro através do celular.


E as cartas que revelam os segredos

Ocultos no mais íntimo desejo,

Agora não dependem do correio,

Chegam irresponsáveis, muito cedo,

Mensagens instantâneas e gracejos

Anunciam por entre sons tão feios.


Mas ainda com todos os objetos,

Não consigo me dar por satisfeito,

Dos dias que estou só restam dejetos,

Não posso desfazer o que foi feito.

O amor universal que manifesto

Exige que se possa dar um jeito

De ver-te, ouvir, sentir na pele o gesto,

E um modo apenas de enxergar espreito,

O ato mais absoluto então atesto:


Fecho os olhos e abro o peito,

Eu vejo um mundo perfeito,

O modo com que teus dedos

Se enrolam nos meus cabelos,

Teus brilhantes olhos negros,

Tuas mãos e nossos beijos,

Eu vejo um mundo perfeito.


Ilusão. Não passou de um devaneio.

Aqui me encontro preso em cinza nuvem.

Té da minha vontade estou alheio.

E a dor e a solidão que dentro vivem

Tomam forma maior que o sentimento.


As imagens formadas na memória

São nada mais que história, são sinais,

São marcas da saudade, são mensagens,

Paisagens, fragmentos, são vitrais,

São nada. Sofrimento e nada mais.


Mas no canto da boca em meus sorrisos

Ainda restam resquícios de teus beijos,

Restam desejos, falta-me juízo.

E o tempo toma forma de poesia.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Brisa

Posto mais um poema do grande caramada Lucas Perucci de Londrina, companheiro de militância e poesia

Brisa

uma Brisa leve,
lambe a pele,
perscruta cabelos,
oxigena lábios.

se condensa
condena
e passa.

- toda Brisa esvai e vaza! -
voz da Brasa
quase Cinza.

Mas,
sugo sopros
de outras Brisas,

e como sou
também de Fogo,
me incendeio de novo