sábado, 18 de setembro de 2010

Depoimento

http://www.youtube.com/watch?v=hg80VCWmq-Q&feature=channel



A vida tão pesada no interior,

Sofrida de pegar na enxada. Dor.
Mão calejada, dolorida mão,
Suor se troca por devido pão.

Pastagens até onde a vista alcança,
Pardais na lua mansa que foi cheia.
Riachos donde o banho se tomava,
Vagalumes da noite pensativa.

Que saudades dos tempos de meus pais,
Da roça era colheita do amanhã.

Foi sem veneno e hoje sem comida
Foi sem direito e hoje é sem terra
Caiu na favela
No barranco, na quebrada
Cai a chuva, cai a pedra
Cai na vida, cai na estrada
Era do campo e hoje é da cidade
Era feliz, e hoje está na vila

Ninguém mora em barraco porque gosta.
Dormir sem-teto não-é pra qualquer um.
A casa da família não se aposta.
A nossa luta é luta em comum.
Quando chove é bueiro, esgoto em casa,
Erguemos essa rua, esses barracos,
Estamos há dez anos nessa vida,
Eu diria pra eles que eles nunca
Sofreram de verdade nessa vida,
Não sabem o que é acordar e não saber
Onde botar seus filhos e os criar,
Criar dois filhos na miséria, pobreza.
Veio de berço essa riqueza deles!
Por isso que eles falam tudo isso!
Se viessem um dia aqui, dormir,
Eles iam saber como é que é.

Despejo, desespero, mais despejo
Desejo de parar, abandonar,
Desterro que tirou de nós a fala,
Violência de jeito, que desgraça.
Medo de erguer de volta a dignidade,
E de levar mais uma na cabeça.
É tiro de raspão, tiro certeiro,
Na lavoura e dentro da cidade,
É um que cai, desiste, outro que foge,
Outro que é morto (pá!) assassinado.
E tantos que no mundo andam drogados,
Perdidos na doença do marasmo.

O problema inda está lá, mas estou viva.
Tem que ser um por outro e ser unidos
Para ver se consegue alguma coisa.
E correr lado a lado com o povo
Tem que ser todo dia, porque o povo
Não existe de quatro em quatro anos
.

Não saí dessa terra, fui expulsa...

Não vim morar na vila, fui jogada...

Não fiz uma carreira, fui lançada...

E se sou baderneira, militante,
E socialista e revolucionária,
Isso é porque não fiz escolha alguma
Na minha vida! Só fui obrigada,
Mandada pelo pai, pelo marido!
Pela palavra suja dessa escória!

Não escolhi ser hoje militante,
Eu fui convocada
Por exigência da História!