segunda-feira, 5 de abril de 2010

Anatomia Garoa

Meus olhos estão secos
Como as folhas que caem
Pisadas por mil sapatos
E saltos agulha

Minha garganta carece
De água ou aguardente, não sei
Minha voz mente
Quando não está rouca
Quando não está louca

Ah, esses pingos de chuva
Que borrifados me afogam
Banhando-me a face, os óculos,
Por todas as direções
Minha cegueira torpe

Meu Deus eu queria cair
Num bueiro que me tragasse
E me levasse direto pro mar
Eu queria navegar
Disperso numa queda sem fim
Nas águas de mil Iguaçus
Nas espumas brancas do céu

Meu peito carece de ar quente
E gelado arfa, não sente
Que a fumaça se agarra nos pulmões
Com unhas e dentes

Meus ossos, esses meus dentes
Tiritam e fraturados
Chacoalham carentes de cálcio
Meu dentes mastigam minha própria língua

Por onde andarão minhas pernas?
Que caminhos? Que vielas?
Restará joelho ou canela pros cacetes que vou levar?

Ah, eu queria me lançar no escuro
De um poço que o fundo é surpresa
Cair sem pressa nem dor
E parar além de Bojador
É a luz de que saio e me esqueço
As cores sem cor desse Abril

Frio

Minha cabeça está vazando
Um líquido viscoso irreal
É o nada que nos enche
É o tudo virtual
Que não mais é comportado
Na caixa craniana
Que expele charcos fantasmagóricos
Em pura febre, fantasia
Esse mundo da mercadoria
Essa pena tácita que nos é imposta
Essa chuva ácida que nos corrói a vida

Sem água
Sem nada
Sem tudo
A morte chegou

Um comentário:

Hugo Simões disse...

me identifiquei muito yuri
uns versos parecem que saíram da minha boca (ou do meu lápis hhehe)!
muito bom meu grande amigo poeta!