segunda-feira, 5 de abril de 2010

Alma

Aqueles versos antigos de ânsia
Ressignificarei
Na mais podre - e farta - rutilância
A alma humana cai sobre si mesma

Quanta miséria
Mas a pior miséria é o abismo da ignorância
O que um dia já foi esperança
Agora é apenas espera
Espera da morte que vem

Aqueles versos de nenhum vintém
Quem os daria importância?
Se a alma é o abismo do homem
A lama é última instância

Recordas da tua infância, verme?
Lembra-te que a lembrança
É o esquecimento do instante de agora
E que a chuva que cai la fora
É só uma etapa da merda que és

Sim, todos sois merda
E nenhum perfume ou fragrância
Será forte o bastante para ocultar
Que a alma humana é ganância

Com pernas tortas e defeituosas
A raça humana avança
E temendo por sua própria segurança - de uns poucos
Começou sua terrível vigilância

- Ei, tu, misto de ser não-ser!
Misto de sancho e pança
Mais de um milhão de crianças
Mortas sem Deus nem Lei
Não é só por implicância
A alma humana é o vômito
O excremento total

A alma humana é um abismo
É a miserável sem-importância
A alma é o abismo, é a lama
A alma perdida é humana

2 comentários:

Hugo Simões disse...

Cara, esse poema é uma grande exclamação que de algum jeito foi suspirada dolorosamente

!

"O que um dia já foi esperança
Agora é apenas espera"

e acrescento que a espera
desespera.

abração!

Fernando Marcellino disse...

Quando a poesia que se encontra suspensa parece retornar a mente depois de lida se ganha um abismo que, depois dessa suspensão, faz o cotidiano funcionar mais enriquecido.