quarta-feira, 28 de abril de 2010

Urbanoturna


Na égide daquela noite perversa,
Você exalando sexo pelos poros
Masturba-se com versos sudorosos
De mil rimas pontiagudas que gotejam.

Na artrite dos gestos, o sufocante
lençol sorvia o peso do suor.
Ossada, a cada farol de automóvel,
Treme de temor adiado do sol.

Que tremenda correria das horas!
Caduco sono desanoitecido,
Humorácido assim vinicolado
De beijos mentolados, de cigarros.
Fera contrição de publicidade,
Fero júbilo de mediocridade.
Ninguém pode entrar no quarto esta noite.
Mas a sensação... Contrastes de merda!

Mentindo pra todo mundo a verdade
extática secreta de prazer.
Secreção sintética desse amor.
Carícia de entreolhares de lascívia,
Déia de fluidos, fino fio, navalhas,
Cheio nosso lunarcerúleo lume.

Nume que frechas veludadas lança
Nos esternos dos de amor tumescidos,
Atira no ocular da humanidade!
Vida minha, na nossa se resolva,
Deidade alguma vai botar defeito.

terça-feira, 20 de abril de 2010

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Campos

Abandona a falsa solução individual
Larga da vida-a-vida, do dia-a-dia
Solta as mãos
Mas bate a cabeça no muro
Coloca as mão nesse galo
Não foi de Eva o pecado
- Ele é nosso
(primeira pessoa
do plural)
Pessoa do nada, pessoa normal
Pessoa penada - deserto
José Paulo Paes já dizia:
Mataram a poesia
Clamava que não havia
Sido ele o homicida
Mas eu já sabia

A cova
Absolutamente
Não está nada vazia

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Alma

Aqueles versos antigos de ânsia
Ressignificarei
Na mais podre - e farta - rutilância
A alma humana cai sobre si mesma

Quanta miséria
Mas a pior miséria é o abismo da ignorância
O que um dia já foi esperança
Agora é apenas espera
Espera da morte que vem

Aqueles versos de nenhum vintém
Quem os daria importância?
Se a alma é o abismo do homem
A lama é última instância

Recordas da tua infância, verme?
Lembra-te que a lembrança
É o esquecimento do instante de agora
E que a chuva que cai la fora
É só uma etapa da merda que és

Sim, todos sois merda
E nenhum perfume ou fragrância
Será forte o bastante para ocultar
Que a alma humana é ganância

Com pernas tortas e defeituosas
A raça humana avança
E temendo por sua própria segurança - de uns poucos
Começou sua terrível vigilância

- Ei, tu, misto de ser não-ser!
Misto de sancho e pança
Mais de um milhão de crianças
Mortas sem Deus nem Lei
Não é só por implicância
A alma humana é o vômito
O excremento total

A alma humana é um abismo
É a miserável sem-importância
A alma é o abismo, é a lama
A alma perdida é humana

Anatomia Garoa

Meus olhos estão secos
Como as folhas que caem
Pisadas por mil sapatos
E saltos agulha

Minha garganta carece
De água ou aguardente, não sei
Minha voz mente
Quando não está rouca
Quando não está louca

Ah, esses pingos de chuva
Que borrifados me afogam
Banhando-me a face, os óculos,
Por todas as direções
Minha cegueira torpe

Meu Deus eu queria cair
Num bueiro que me tragasse
E me levasse direto pro mar
Eu queria navegar
Disperso numa queda sem fim
Nas águas de mil Iguaçus
Nas espumas brancas do céu

Meu peito carece de ar quente
E gelado arfa, não sente
Que a fumaça se agarra nos pulmões
Com unhas e dentes

Meus ossos, esses meus dentes
Tiritam e fraturados
Chacoalham carentes de cálcio
Meu dentes mastigam minha própria língua

Por onde andarão minhas pernas?
Que caminhos? Que vielas?
Restará joelho ou canela pros cacetes que vou levar?

Ah, eu queria me lançar no escuro
De um poço que o fundo é surpresa
Cair sem pressa nem dor
E parar além de Bojador
É a luz de que saio e me esqueço
As cores sem cor desse Abril

Frio

Minha cabeça está vazando
Um líquido viscoso irreal
É o nada que nos enche
É o tudo virtual
Que não mais é comportado
Na caixa craniana
Que expele charcos fantasmagóricos
Em pura febre, fantasia
Esse mundo da mercadoria
Essa pena tácita que nos é imposta
Essa chuva ácida que nos corrói a vida

Sem água
Sem nada
Sem tudo
A morte chegou

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Aquela Gente Nossa

Aquela gente toda continua
A ir direto até a cova
Vai olhando para a face da lua
Lua que está sempre nova

Em febre alucinante compulsiva
No cair da chuva ácida
Vai consumindo a coisa remissiva
Esquecendo a pena tácita

Ao grande sofrimento desse nada
Adeus! Apenas comprar
Vai vagando tal qual alma penada
Em novena de gastar

Aquela gente toda continua
A louvar a fantasia
Vai se transvestindo mas resta nua
No além da mercadoria

Nossa gente repousa fria
Repousa tardia
Repousa muda

É hora da alforria
É hora da luta