segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Espelho D'Água

O poeta me recomendou não escrever sobre o amor
Escrevo em baixo dele então, sob o amor
Aqui por baixo eu vejo claramente:
Ele é só a ponta de um imenso iceberg

Essa colina gigante de gelo submersa
É curioso fenômeno natural
Naufraga grandes navios
Abriga animais ferozes
Derrete no aquecimento global
E se dilui em todo o mar feminino - a água salgada que o carrega

Maria, em suas simpáticas cartas a certo jovem, talvez não saiba
Mas o Yang submerso do iceberg não é o ódio
O ódio não é aquático
O ódio não é salgado
Todo navegante que mergulha como eu sob esse mar geladíssimo
Sabe que o sal que salta dos olhos
É só a ponta
De um imenso iceberg

Monólogo

Sinto um irrefreável desejo de viajar para além dos Marumbis, muito além
Detrás do Rio Paraná e dos charcos imensos
Eu vejo mil braços a me acenar carinhosamente que eu parta
Que eu venha expelido da mata atlântica
Carregando em meu peito mil sonhos

Mas nenhum sonho é de menino
São sonhos sangrentos que me atormentam a madrugada
E me cutucam as nádegas para que corra
Na direção desse esperado desconhecido
Essa terra erma cheia de gente terrena e singela
Gente que eu nunca vi, mas que me espera cheia de dentes
São mil sereias a cantar uma elegia vermelha

Eu não quero saber mais do mármore frio das praças
Ou dos parques sem crianças
Muito menos das escadarias sujas de titicas de pombos onde sento diariamente

A cera caiu dos meus ouvidos
Mas qual será a corda que me ata nesse mastro à deriva?

Sinto um desejo irrefreável de me jogar ao destino como um dado de Roletemburgo
Passar dias sem comer, sem tomar banho, sem ter onde domir direito
Será que eu aguento essa vida de vagabundo?
Não quero me sentar na varanda do fim dos dias e recordar da minha juventude
O nada da pós-modernidade, o tédio da pequena-burguesia

Antigamente, as pessoas letradas eram todas romancistas de sua própria vida
Eram papéis diários cheios de descrições minuciosas e tentativas de análises psicológicas
Ninguém mais escreve diários!
Os dias são tão monótonos que não valem uma pena
A modorra pós-moderna se apoderou da criatividade
Descrever o que?
Despertador-faculdade-almoço-estudo-cama
Despertador-faculdade-estágio-bar-cama
Despertador-parentes-cama
Despertador-jogodefutebol-cama
Analisar o que?

Sei que o pior de tudo é que o fim dessa era magnífica de cronistas do cotidiano
Liquidou uma geração inteira de leitores
E agora quem lerá esse meu desabafo? Essa minha reflexão?
Hugo, Jéssica, alguém que procura por "rimas com Yuri" ou "jogos ordinários"
Lá de Portugal ou de Zimbabwe (que me importa?)

A revolução não se dará, como dizia o idealista Cristóvam, pela educação
Mas talvez a recíproca seja menos falsa

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Odisséia

A tecnologia nos desune
Enquanto os olhos choram
As palavras punem
Esse plasma é a esfinge de nossa era

A técnica nos desnuda
Porém não nos tira a verdade do tom
Qual é a tênue mentira
Ocultada atrás da cortina de teflon?

Será a vida? O grande amor? A sorte?
Talvez a face branca da morte
Talvez uns olhos de amêndoa
Da Cleópatra mais forte que há
Que dobra os homens como dois buracos negros
Como a maré puxa de volta o mar ressacado

A tecnologia nos desune
Quanto mais eu penso em você
Mais você some e o tempo me pune

Até amanhã, ao ano que vem, daqui um mês quem sabe
Tomara que os dias não ceguem o fio da navalha
Que as palavras não se percam esquecidas
Os livros deixados de lado
Beijos arrependidos
Não!

Enquanto a técnica nos ataca
As palavras são única saída
Ítaca
Palavras