segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Para Paulo

Hipermétrope
olha atentamente
com seus grandes olhos engrandecidos
pelas lentes convergentes deitadas sob o nariz

Trata-se de um socialista
Um socialista hipermétrope

Literato conceituado
nos nomes mais loucos e refinados da literatura
sabe de cor declamar de Dante à Maiakoviski
e resolver as questões do vestibular

Trata-se de um socialista literato
Um socialista literato hipermétrope

Poeta sensível
às questões sociais e econômicas e políticas
escreve à la Pound
um provençal contemporâneo

Trata-se de um socialista literato poeta
Um socialista literato poeta hipermétrope

Ao cofiar sua barba volumosa
revela os fatos da Folha e da Gazeta
transforma o Flamengo em pauta crítica
é jornalista mais acurado que o mais esperto repórter

Trata-se de um socialista literato poeta jornalista
Um socialista literato poeta jornalista hipermétrope

Do Sabará ao Itaqui
de Itaperuçu, Fazendinha, Cepat, Centro Che
conselheira tutelar, movimento dos surdos, MST
campanha pra prefeito, diretório, Londrina, CPT

Um socialista literato poeta jornalista militante
Trata-se de ninguém menos
Que o camarada Paulo

sábado, 21 de novembro de 2009

Prolesia



Tu Voltas

Vida vai
Vida vem
Tantas voltas que se voltam
Que eu não conheço mais ninguém

Tento me lembrar de cada milímetro
Cada minuto
Cada sentido

É a cura de todos os malefícios:
Das bebidas, das drogas
Das troças, dos bixos
Das traças, das togas
Dos beijos, dos vícios
Das palavras e abraços
Dos braços dos beijos novamente


Tantas voltas que não conheço

Heroicamente me divido em dois
Esquecendo
(ou tentando)
Me jogo na vodka porque no tédio o camarada já sabe
Heroicamente me revelo em dois
Dizendo
(ou tentando)
Me jogo no telemóvel porque sou inclinado à sonoridade

Incitado por motivos transcendentais
Eu insisto como uma mosca
Resisto a todas as tentações - nunca olho pra trás
(só com o canto do olho)

O regresso dos meus sentimentos
Torna a domingos atrás
Quando eu lia nos teus olhos
Chegando na estação fumegante dos meus trens

Tanto voltas
Que mais ninguém
Mais a vida
Vida, vem!