domingo, 2 de agosto de 2009

O Pombo

Óbvia referência ao Edgar Allan Poe, como esse poema é grande demais pra um maionese e não caberia numa folha acadêmica aqui vai ele
Singela homenagem a José Paulo Paes no final do poema, que é antigo ja...

O Pombo

De Edgar Allan Pombo

Voou na noite clara, céu vermelho,

Anunciando a peste um pombo negro.

No solo, em suas vestes,

No diretório agreste,

Um estudante puxa do seu peito,

Bruscamente, terrível documento.


À surdina, ocultados no breu,

Seus cúmplices encaram o papel

E tiritam e tremem,

Parece até que sentem

A injúria que fazem a seus colegas,

Política que lhe fazem às cegas.


Sob a luz trêmula do celular

Suas penas ríspidas a riscar

Vacilam, temerosas.

Porém, são orgulhosas

As mentes daqueles oportunistas,

Rumo a se tornarem especialistas.


Pronto. Essa sentença foi lavrada.

Mas a execução também foi cravada.

Desejam vomitar.

Ficam no desejar.

Mas antes de conseguirem fugir,

O pombo os impede. Começa a rir.


Eles se detêm. Um deles murmura:

“Qual será o tamanho dessa atadura?

Será que temos chance?”

E o pombo, de relance,

Olhando-os e postando-se atrás,

Sinistro pronuncia: “nunca mais!”


Todos, amedrontados, estremecem.

Será que é remorso o mal que padecem?

“Quem está a nos zombar?”

Disse tentando achar

Alguém camuflado, pregando peça.

Mas não havia ninguém na travessa.


E outro deles, tremendo, disse então:

“Prometemos essa conciliação,

E sofremos pressões,

Sem manifestações!”

Mas o pombo negou-lhes a paz:

E novamente disse: “nunca mais!”


O medo da multidão na avenida

É o medo de mudarem suas vidas,

Entender a verdade,

Ver a desigualdade,

Sentir no outro extensão de si.

Crer e compreender que é possível sim.


Um diz: “vou te matar, ave fajuta!

Consigo tudo com a força bruta!”

Contra qualquer baderna

Esse homem da caverna

Lutava em vão, pois palavras reais

Trazia aquele pombo: “nunca mais!”


“Tolos radicais, não somos culpados

De querermos nos formar já empregados!”

Disse com muita pompa

Desafiando a pomba

Uma menina mesquinha e egoísta

O caráter público nem à vista.


Voa o pombo mais perto dos alunos

Vê-se escárnio no seu olhar profundo

“Saia! Não és nem corvo!

Basta de tal estorvo!”

Mas o pombo disse palavras tais

Que os aterrorizaram: “nunca mais!”


“Minha luta é pela minha empreiteira!

Tenho muito dinheiro e sou herdeira,

Não se meta comigo,

Ou sequer um amigo

Vai te dar um emprego! Disse ela.

A ave mofa a voar pra janela.


Mas ave de curto vôo, o pombo

Sorri de pena, murmura de novo

As tais palavras vagas

Não absolve ou condena

Apenas pronuncia contumaz

As palavras infernais: “nunca mais!”


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