segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Gineceu

Mulheres partem da terra
O homem mora no inferno
De tudo o que ele enterra
Quem do monte cultiva uma flor - é ela

De tudo o que o homem encerra
Ela sabe reconstruir

O homem ferra
A mulher cobre
A mulher sabe
O homem erra
Ele carece
Ela carícia
Ele revéz
Ela reveza

O homem não suporta a solidão
Encerra a solidão
Sua solidez é o cinto-de-segurança
Insegurança
Insensatez
O nome do homem é "eu"
É seu

O primeiro pecado
Foi o primeiro predicado
A tristeza masculina
É um poço sem fundo
Sem água pra refletir cara
Sem corda nem futuro

Hoje, tudo é homem
Tempo inseguro e insensível
A luta da mulher
É a luta pela mulher
O feminino em cada grão de areia
Flor, carícia
A mulher que todos nós
Invejamos que talvez exista

domingo, 30 de agosto de 2009

Essa postagem é só pra avisar a galera que meu duo gravou novo demo
quem quiser ouvir as musicas é só ir no myspace http://www.myspace.com/duoquintessencia
abraços

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Se o óbvio acontecer
Nunca serei feliz

Abandonei faz tempo a ilusão de ser eterno

Eu não quero ser reconhecido
Como aquele homem - ponto

Sozinho

De metades o mundo não vive
Parece que ela não entende isso
Ou serei eu
O tal do ignorante?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Domingos Nascimento

Olá, posto aqui um poema que não é meu, foi-me passado pelo Felipe Drehmer, muito bom poema, de 1896

Perguntava a certos dias,
a certo padre um taful:
"Por que inundam bacharéis
tanto a América do Sul?"

Fica o padre pensativo,
Carrega o sobr'olho e cara,
e de pronto lhe responde
com voz pesada e amara:

"- Castiga Deus quando apraz-lhe
Em sua ira os fiéis;
Teve o Egypto gafanhotos,
o Brasil tem bacharéis"

Domingos Nascimento, 1896 - poeta curitibano

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Só por que não tinha bebido
Não quer dizer que ela não estava
Embriagada
Torpe
Trançando as pernas

De tanto amor
Ou mentira
Não sei ver diferença

Assim como eu
Que não importa o quanto tinha bebido
Fumado
Cheirado
Estava sóbrio como um otário
Como um anônimo
Como quem toma remédio e não pode

Eu não posso ver essas suas pernas
Trançadas ou não
São elas que trançam meu peito
Como uma cascavel
Mas a rima não veio
Não posso falar coração
Prefiro falar peito
Porque estou cançado de ter espectativas realizadas

Aquilo que é óbvio nunca pode acontecer

domingo, 2 de agosto de 2009

Exorcismo

Esse poema, juntamente com os anteriores, a partir do poema sem título abaixo, faz parte de uma série antiga, considere isso uma reciclagem de 2006, 2007 e 2008

Amava mais te amar do que te amava
Queria mais sonhar do que beijava
Queria mais te olhar do que falava
Sonhava mais teu seio
Olhava mais idéia
Minha Dulcinéia
Arrancada do meu peito
Você era o vento
O que eu amava era moer
E moia todo sentimento
Que remetia a defeito teu

Acabou meu ódio
Meu remorso
Xenofóbico

Agora tu não mais és
Apenas poesia ralé
Mas contigo percebi que
O eu me amava
E considerava você, eu
E deste egocentrismo embromador
Jamais sofrerei de novo

Adiós,
Que tu poesía murió.

Jogos

Eu não consigo fingir
E o destino faz chover
E a minha face faz sorrir

Há de haver uma caverna qualquer
Onde não chova mais

Cada pingo não passa
De um prego
Cada chão não passa
De cama
De madeira
De bálsamo e caveira

Parece que alguém brinca com meu diafragma
Nas vezes que me deparo com:
Jogos ordinários redundantes de anos no atraso

Mais uma vez que me esqueço
A natureza faz-me lembrar
E relembrar
É sofrer
E chorar pelo céu
É correr
Pelo chão

A Fuga dos Diversos

Quem caminha pelas bandas de baixo
Na mata atlântica virtual
Ou nas asas extintas da gralha

Pega um cavalo e galopa

Quem sossega pelas chapadas do meio
No serrado brasileiro
Ou nas copas das mudas de soja

Pega um tuiuiú e avoa

Quem balança nos galhos nortistas
Na hidrelétrica de igapó
Ou na surucucu trangênica

Pega um poraquê e choca

Agora um papagaio entra pela janela e fala:

Never More

Never

More

Efígie Impontual Atemporal

Após horas da madrugada
Incertas ainda que próximas
Queria apenas dormir
- Como queremos todos nós
Embaixo daquela água
A boca semi-aberta
Deixava tudo cair
Em uma hipnose
De olhos sem piscar
Apenas a concentrar
A umidade do azulejo
Nu em pêlo e em desejo
Queria apenas deitar
- Como iremos todos nós
Ao soluçar um pouco
Fraco e encolhido
Sentia o prazer
De ser ouvido
Por Deus ou por Satã
E o apego que tem o afã
Os tics e, um pouco,
Os tacs são os metrônomos
Dos balidos soçobrados
Queria apenas morrer
- Como devemos todos nós
Não sabia ele que
Contaria ao infinito
Pulos mirabolantes
Não sabia se tinha esquecido
De pagar a conta de luz
Não sabia seu endereço
Não sabia mais Jesus
Nem seu nome
Nem o alfabeto
ne

Sob As Barbas De Geraldo

Na ótica óptica de uma lente
Há mais vida que nos olhos
De um intelectual indolente

Assombra-me a simples verdade
De que nada mais é a morte
Além de um atributo da complexidade

Que pequenos quais estrelas
Setenta e cinco ângstrons
Separam a vida da antítese estreita

Mas tudo isso não impede As mãos de se apertarem...
Nada podemos no além
Nada podemos além de morrer
Vai além da vida a morte
Na vida a morte vai além

O amor além do desdém
O nada que vai além
Ao infinito final da vida
A morte querida
Outro lado do espelho
Foto minha
Essa realidade dolorida
Além da gaiola das minhas costelas
Transcende
Em ecos ouvidos da eternidade

Como embaixo d’água visse
Tua face mirabolante
Num sorriso soluçante
E nos portões de além-mar
Lágrimas em minha cara
Vermelha em mastro
Nos corações de além-amar

O Pombo

Óbvia referência ao Edgar Allan Poe, como esse poema é grande demais pra um maionese e não caberia numa folha acadêmica aqui vai ele
Singela homenagem a José Paulo Paes no final do poema, que é antigo ja...

O Pombo

De Edgar Allan Pombo

Voou na noite clara, céu vermelho,

Anunciando a peste um pombo negro.

No solo, em suas vestes,

No diretório agreste,

Um estudante puxa do seu peito,

Bruscamente, terrível documento.


À surdina, ocultados no breu,

Seus cúmplices encaram o papel

E tiritam e tremem,

Parece até que sentem

A injúria que fazem a seus colegas,

Política que lhe fazem às cegas.


Sob a luz trêmula do celular

Suas penas ríspidas a riscar

Vacilam, temerosas.

Porém, são orgulhosas

As mentes daqueles oportunistas,

Rumo a se tornarem especialistas.


Pronto. Essa sentença foi lavrada.

Mas a execução também foi cravada.

Desejam vomitar.

Ficam no desejar.

Mas antes de conseguirem fugir,

O pombo os impede. Começa a rir.


Eles se detêm. Um deles murmura:

“Qual será o tamanho dessa atadura?

Será que temos chance?”

E o pombo, de relance,

Olhando-os e postando-se atrás,

Sinistro pronuncia: “nunca mais!”


Todos, amedrontados, estremecem.

Será que é remorso o mal que padecem?

“Quem está a nos zombar?”

Disse tentando achar

Alguém camuflado, pregando peça.

Mas não havia ninguém na travessa.


E outro deles, tremendo, disse então:

“Prometemos essa conciliação,

E sofremos pressões,

Sem manifestações!”

Mas o pombo negou-lhes a paz:

E novamente disse: “nunca mais!”


O medo da multidão na avenida

É o medo de mudarem suas vidas,

Entender a verdade,

Ver a desigualdade,

Sentir no outro extensão de si.

Crer e compreender que é possível sim.


Um diz: “vou te matar, ave fajuta!

Consigo tudo com a força bruta!”

Contra qualquer baderna

Esse homem da caverna

Lutava em vão, pois palavras reais

Trazia aquele pombo: “nunca mais!”


“Tolos radicais, não somos culpados

De querermos nos formar já empregados!”

Disse com muita pompa

Desafiando a pomba

Uma menina mesquinha e egoísta

O caráter público nem à vista.


Voa o pombo mais perto dos alunos

Vê-se escárnio no seu olhar profundo

“Saia! Não és nem corvo!

Basta de tal estorvo!”

Mas o pombo disse palavras tais

Que os aterrorizaram: “nunca mais!”


“Minha luta é pela minha empreiteira!

Tenho muito dinheiro e sou herdeira,

Não se meta comigo,

Ou sequer um amigo

Vai te dar um emprego! Disse ela.

A ave mofa a voar pra janela.


Mas ave de curto vôo, o pombo

Sorri de pena, murmura de novo

As tais palavras vagas

Não absolve ou condena

Apenas pronuncia contumaz

As palavras infernais: “nunca mais!”