sexta-feira, 24 de julho de 2009

Esse cheiro

Esse cheiro...
Esse cheiro sou eu
Minha pureza abandonei há muito tempo

Agora em minhas mãos
Nos meus dedos
Embaixo da unha
Esse cheiro...

Calei a boca dos meus pulmões
Construí barricadas nas minhas artérias
Fiz piquetes no meu sistema nervoso central
Joguei pela privada os comprimidos
As receitas
Os estetoscópios

Ando me cuidando demais ultimamente
Quantas doses serão necessárias
Pra me destruir os pedaços dos rins?
Um pouco de masoquismo cai bem
Somente a autofagia nos une

Mas nisso não vejo mais graça nem dor
Preciso mesmo
É flagelar um pouco você

Ah! Pegar sua garganta c'os dedos
Encostar você na parede com tudo
Forçar violento o gosto do seu batom
E te jogar no chão!

Não te violentaria
Porque não pago por sexo

Agora é na minha boca
Esse cheiro...

Cuspirei nos baldes da razão
Que de tanta saliva estão cheios
Tão cheios que estão
Que nem tem mais razão em sê-los

Esse cheiro...
Esse cheiro é o desejo
É o cheiro do não

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O Ex-calvo

O homem de meia idade
Em crise, avaro há dias,
Mira-se no espelho:
- Tudo menos ser calvo!
- Tudo menos careca!

Apesar dessa mágoa
Os ralos fios do pobre
Deputado eram lindos
Eram tão bem cuidados
Que a cabeleira enorme
Dos sem-cabeleireiro
Ficava se mordendo
Tamanha era sua inveja

Mais liso que a careca
O calvo foi esperto
O doutor fez milagre
Cobriu o descoberto

E agora o deputado
Quer ser governador
Não quero moral nenhuma
Porque toda moral é burguesa
Quero derrubar a moral
Como em Berlim derrubaram o muro
Dar um murro em toda moral
E fazer um mural sobre o burgo

Aquele que preza a moral é um burro!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Lugar Comum

Todo mundo sabe a velocidade
Com que o destino arrasta nossas vidas.
Enquanto alguns já dão as despedidas,
Estamos nós na flor da mocidade.

Porém, não é somente por vontades
Que nossas coisas são feitas e ditas.
Embora eu não entenda o que é verdade,
Tu ouves minhas palavras inauditas.

Minhas poesias, quero dá-las todas!
Vão-se, versos! Palavras feias e tolas.
Depois do fim que só sobrem retratos.

Minh'alma vou vender a quem passar!
Dor eterna no inferno?! Nem pensar!
Intermedeio ao diabo este contrato!

A Frase do Dia

A frase do dia é: grandes são
Mas tem tantos outros dias com tantas outras frases
Que nem vale a pena guardar frase alguma de dia nenhum

Apesar disso
Parece que todo dia
A mesma frase permanece no meu calendário:
- grandes são

O poeta estava certo
Não em ser poeta
Mas em ser amargo
E em não entender o tremor das pernas
Que tremem mesmo quando não tremem
E dançam sem querer dançar
Mesmo quando não se movem

Às lágrimas! ah, as lágrimas, tsc tsc
Já me acostumei com elas
Ainda assim
Eu não tenho medo do amor
Mas é o amor quem tem medo de mim
E sai correndo

Nesse jogo de ponta cabeça
O adversário não vem
Embora eu já esteja de uniforme vestido
E é sempre ele quem ganha de W.O.

Eu fico com o W. C. mesmo
E não compreendo as coisas ridículas
Apenas, como sempre,
Espero
E quando enfim a tempestade de desespero me exaspera
A aspereza do vazio me faz todo chão parecer um buraco
O ar, sim,
É um imenso buraco escuro em que me sinto caindo eternamente
Um poço profundo que não produz eco
E eu por dentro grito
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAaaaaaaaaaaaa
Mas é um grito abafado por travesseiros de outros quartos

Ela sempre disse não
Mesmo quando disse sim
E eu pensava que minha face descolaria
E que mandaria pro diabo qualquer carnaval da minha vida
Minha vida sim,
É um carnaval
Um baile de máscaras
Mas de tão desgastadas pelo tempo e pelas interpéries
Que os pierrôs deformaram a própria cara
Porque mais caro é o embuste
E nessa farsa tragi-cômica
Cômica porque ridícula
As columbinas são todas prostitutas
E eu
Um pobre, um pé-rapado, um desgraçado, um verme, a gonorréia e olhe lá

E a frase da noite?
Tudo é grande

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O Peregrino Apaixonado

Esse é um poema de Shakespeare, tentei traduzi-lo, acho que a tradução ficou melhor do que a da Go, Lovely Rose, mas é claro que ainda não está aquelas coisas...


The Passionate Pilgrim


13


Beauty is but a vain and doubtful good,

A shining gloss that vadeth suddenly,

A flower that dies when first it ’gins to bud,

A brittle glass that’s broken presently;

__A doubtful good, a gloss, a glass, a flower;

__Lost, vaded, broken, dead within an hour.


And as goods lost are seld or never found,

As vaded gloss no rubbing will refresh,

As flowers dead lie withered on the ground,

As broken glass no cement can redress:

__So beauty blemished once, for ever lost,

__In spite of physic, painting, pain and cost.


O Peregrino Apaixonado


13


Beleza é bem duvidoso e vão,

Brilho ofuscado de repente,

Uma flor que morre ainda em botão,

Vidro quebrado no presente;

__Bem duvidoso, um brilho, um vidro, a flora;

__Perda, fusco, caco, morto em uma hora.


Qual perda é vendida, jamais achada,

Qual brilho fusco esfregão não refresca,

Qual flor morta, cai no chão, murchada,

Qual vidro em caco nem cimento mescla:

__Beleza uma vez manchada, perdida,

__Embora arte, ciência, dor e valia.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Voar

Está na hora de apaixonar-me.
E nem sou eu quem disse tal coisa,
Tudo me pulsa em volta de mim,
Indicadores dedos me cercam
Acusando minha solidão.

Mas é como se fosse um espelho
E reflete uma rosa vermelha
De casaco, cometas, estrelas.

Multidão se coloca entre nós,
E nos afasta cada vez mais.

Para o inferno esse pessoal!
Quero cetim nesse firmamento.
Para que assim possa nele firmar-me
E chegar a ti entre as luzes.

Dizer que isso tudo é verdade.

Voar pelo céu em carícias.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Brado do náufrago

vejo ainda o nobre
meu inesquecido ainda amigo
cabelo de cobre

Esse é um poema que eu ganhei no meu aniversário do ano passado. Presente anônimo, pois foi um comentário de um poema meu. Revirando o blog, o encontrei e relembrei. Vale a pena publicá-lo, em homenagem a(o) inominad@ autor (a).

domingo, 12 de julho de 2009

Excerto

Antes achava que tudo era sentimento
Lia todos os poemas
Silenciosamente
Escrevia toda poesia
Intersubjetiva

Mas compreendo hoje
A liquidez do tempo
Nos corrói o ferro dos neurônios

Acontece que esse liquido histórico
Congelou com o passar dos anos e seus ventos antárticos
E o sentimento perdeu em demasiado seu valor

No século vinte e um
As coisas se parecem muito com o século dezenove
Tenho eu mesmo meus dezenove quase vinte anos
E já compreendo
Poesia não muda nada no mundo
Mas ajuda

Olhando meu passado
Com o coração pintado
De verde e amarelo
Digo:
- a militância me salvou

O amor também
Talvez sejam duas faces de uma mesma
Como se diz?

domingo, 5 de julho de 2009

Contextualização

Quero escrever, camaradas
Com toda saliva saindo pelo papel
Que no meu tempo
Eu
Sei das coisas

No meu espaço
Deixem-me
Que eu me viro

Agora quanto àqueles que se fingem à minha pessoa
Desses que só sobre meu cuspe

Não sei mais
Da China
Os acionistas de Xanghai
Continuam a dar gargalhadas
Nem da Nicarágua
Ou da Costa Rica
Honduras anda aos prantos com Zelaya
E as Nações Unidas - meus caros,
os mesmo que jogaram às traças do leste europeu a nação dos charutos -
clamam pela ilegalidade do corrupto do mesmo partido do anterior presidente

Também não sei
Se o Álvaro de Campos
É ou não Fernando Pessoa
Do mar português
Somente vejo borrascas financeiras
Nada de mulheres bigodudas com seus pasteizinhos de Belém
Mas o Álvaro - meus caros - sabe bem o que dizer a esta era:
"nuncaconheciquemtivesselevado porrada!"

Que se vão para o espaço todas essas lantejoulas dos anos 90
E que se vá para órbita
Como Yuri Gararin
O cosmonauta soviético
Heroi nacional
Essas ações da Lehman Brothers
Esses títulos de créditos do governo norte-americano
Os imóveis hipotecados de Wall Street

Essa rua de paredes
Rua The Wall - totalmente adequado aos padrões Floydianos
Pedra sobre pedra se erguem esses burgueses
Pedras retiradas da muralha da China
Pedras de crack roubadas da Rua Riachuelo
Pedras de gelo das banheiras militares
Pedras doiradas do caminho maravilhoso do Mágico de OZ!

Então, camaradas
Peguem suas máquinas
Tirem esses óculos
Limpem essas lágrimas
Desfaçam todos os laços
Que essa existência é um ócio

Somente a luta é que dignifica
A luta é sempre sanguinolenta
Consome os dias como o fogo consome oxigênio
E deixa as costas duras e os nervos doendo
Mas é ela, camaradas
É ela! Não a mesma do Álvaro
A mesma do Álvarez
E o eco, ainda longe, respondeu:

Celso Eidt... so Eidt....... Eidt
Camaradas!

A realidade
Só se aprende
Se se enfrenta
Defronte o espelho
É que nos vemos
A nós mesmos

E o mesmo cão
Cujas pupilas refletiam o céu
- de talvez Curitiba -
Refletem agora a complexidade:
Crise de dinheiro inexistente
Revolta no Irã de aiatolás
China maior credor dos Estados Unidos
Brasil munido de Odebrecht
Greve do INSS decretada ilegal por Lula da Silva
Camargo Correia dando dinheiro ao Partido dos Trabalhadores
e a lista continua ad infinitum

E agora José?
E o amor?
Será simples ainda?

Riram agora, com tais palavras
Muitos Líquidos analistas
Ex-comunistas
Ex-personagens da pós-modernidade

Porém eu sei
Camaradas
Eu sei onde está a simplicidade
Onde está a totalidade
A dialética
A estética
A luta de classes



Itaqui, São José dos Pinhais
Vila Sabará, Cidade Industrial de Curitiba
Calçada da Fazendinha,
Solo onde se deu à luz a três
Repito
Três crianças nasceram na calçada
Numa favela edificada no meio-fio

E 300 policiais, dois por cada resistente morador,
Deram conta do recado
Que liquidês há na tropa de choque versus pobres sem destino?
Somente se houvesse sangue
O visco líquido que o Capital aprendeu a beber

Sim José, camaradas
A luta é simples como água e pão
E reflete nas pupilas de cada cara marcada de Sol
O Povo só tem o Sol acima das cabeças
E ainda assim, canta
Mas ainda abraça o inimigo como se fosse um irmão

Basta de paz nessa terra!
Façamos a guerra!
Pois só pode haver paz depois da guerra
E vida na luta,
O pão nosso de cada dia
Nos dai
O pão das crianças da ocupação da calçada
Que ficaram sem comer desde às 5 da manhã
Eram onze horas
E sua fome maior era de casa
Pois haviam sido despejadas
Por 300 policiais
Às 5 da manhã

Eis o que chamam Luta de Classes
Eis o que chamam Militância

Havia vida ainda
E era só o que havia
Era só o que se via

Mesmo se eles morressem
Todos eles
Habitantes históricos da calçada
Ainda assim
Haveria ainda vida
E somente se veria
Quão lindos
Quão linda
Que peso
Que vida!