quarta-feira, 25 de março de 2009

Como pode?

Como podem
Falar de fumaça
Quando meu peito
Carece de ar
Como pode o vento apagar
Varrer a areia
Levar as flores
Como podem fumar
Seus charutos
Quando mal aspiro
Este ar rarefeito

Fundo
Bem fundo
Sob a campa d’imbuia
Nos brônquios
Arfo fundo
Como um chorão
Que dorme alheio à luz

Como pode a luz
Anunciar o Sol
Quando a noite
É eterna
No lavabo subterrâneo
Como podem cofiar
Seus volumosos buços
Levantar seus braços
Enquanto outros
Carregam no esquife
Uma senhora
Tão menina

Como tão fundo
Aquele metro e meio
O ar tão rarefeito
Pesada a cabeça

O poder de dispor
De transportar para a ponta dos dedos
Todo o peso do corpo
O poder de cair
Uma ultima vez

Como pode uma senhora
Ser tão menina?

Realmente quis dizê-lo

E te disse – beijo

Mas lábios de adeus

Também Judas já deu

sábado, 14 de março de 2009

A Erupção

Sinto meus dedos formigando inquietos.

Nas vias escorrendo feito água
Mendigos, prostitutas, indigestos
Que num gesto de esquecimento e mágoa
Congelam esse fluxo violento
Como uma barragem sólida e vácua.

Confundem-se com o solo macilento,
Repousam como pedra nas calçadas,
Estátuas arruinadas pelo tempo,
Pedras de fato, que quando chocadas
Produzem a faísca poderosa
Que apenas essas abandonadas
Causam no peito daquelas honrosas
Pessoas desvairadas e sensíveis,
Que inda sentem o odor das rosas,
E que palpitam, incompreensíveis.

Agora, a tal faísca fez-se brasa,
Levantam-se mil sonhos infalíveis
Acalorando dedos, solo e casa.
Ao fazer do mundo um grande deserto
Dá-se conta da chuva que se atrasa.

Como não houvesse ninguém por perto
Os tubarões os perseguem famintos,
Naquele limbo de existência, incerto,
Eles nunca hão de se tornar extintos
Pois há carne demais, que não se basta,
Por mais que às vezes falhem seus instintos
A dose de coitados é tão vasta
Que não cessam os mortos no caminho.

Com isso, tudo que se vê, se afasta,
E se sente cada vez mais sozinho,
Naquela brasa é fogo que se acende.

Raiva, medo, mas o amor e carinho.

Tudo novo e vigoroso se fende,
A indiferença de antes já se fora,
Agora a verdade já se compreende

Sem a explicação lógica, motora,
É do peito até os braços se sente
Uma imensa força transformadora.
Que venha a dor que virá lá na frente!

E desta forma será vitoriosa
A luta que travamos diariamente.

Todos daquela extirpe desonrosa
Tombarão perante a chuva de rochas
Cadentes que na vertente ruidosa
Incendiarão ao povo como tochas.

É fagulha e brasa, é fogueira e incêndio.

Barricada, trincheira que se atocha
E o trabalho, sacrifício, dispêndio
São mãos, que pegam nas pedras e batem,
São todos os livros em um compêndio,
Todos os sonhos antes que se acabem,
Todas as armas antes da batalha
Todas as vozes antes que se calem
O pranto das mães, que cai na toalha
O destino de toda humanidade
Dos que dormem no mármore ou na palha

Jaz no peito dos revolucionários!

No fogo aceso na calamidade
Valores forjam atos Incendiários
Que revelam para o mundo a verdade:
– Tão pouco do meu sal vira salário.

Assim é o tal nosso mundo, um vulcão.
Mas a potência que o faz ascender
Imerge em cada braço e coração

Essa nossa história deve morrer

Para que enfim comece a comunhão.