segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Espelho D'Água

O poeta me recomendou não escrever sobre o amor
Escrevo em baixo dele então, sob o amor
Aqui por baixo eu vejo claramente:
Ele é só a ponta de um imenso iceberg

Essa colina gigante de gelo submersa
É curioso fenômeno natural
Naufraga grandes navios
Abriga animais ferozes
Derrete no aquecimento global
E se dilui em todo o mar feminino - a água salgada que o carrega

Maria, em suas simpáticas cartas a certo jovem, talvez não saiba
Mas o Yang submerso do iceberg não é o ódio
O ódio não é aquático
O ódio não é salgado
Todo navegante que mergulha como eu sob esse mar geladíssimo
Sabe que o sal que salta dos olhos
É só a ponta
De um imenso iceberg

Monólogo

Sinto um irrefreável desejo de viajar para além dos Marumbis, muito além
Detrás do Rio Paraná e dos charcos imensos
Eu vejo mil braços a me acenar carinhosamente que eu parta
Que eu venha expelido da mata atlântica
Carregando em meu peito mil sonhos

Mas nenhum sonho é de menino
São sonhos sangrentos que me atormentam a madrugada
E me cutucam as nádegas para que corra
Na direção desse esperado desconhecido
Essa terra erma cheia de gente terrena e singela
Gente que eu nunca vi, mas que me espera cheia de dentes
São mil sereias a cantar uma elegia vermelha

Eu não quero saber mais do mármore frio das praças
Ou dos parques sem crianças
Muito menos das escadarias sujas de titicas de pombos onde sento diariamente

A cera caiu dos meus ouvidos
Mas qual será a corda que me ata nesse mastro à deriva?

Sinto um desejo irrefreável de me jogar ao destino como um dado de Roletemburgo
Passar dias sem comer, sem tomar banho, sem ter onde domir direito
Será que eu aguento essa vida de vagabundo?
Não quero me sentar na varanda do fim dos dias e recordar da minha juventude
O nada da pós-modernidade, o tédio da pequena-burguesia

Antigamente, as pessoas letradas eram todas romancistas de sua própria vida
Eram papéis diários cheios de descrições minuciosas e tentativas de análises psicológicas
Ninguém mais escreve diários!
Os dias são tão monótonos que não valem uma pena
A modorra pós-moderna se apoderou da criatividade
Descrever o que?
Despertador-faculdade-almoço-estudo-cama
Despertador-faculdade-estágio-bar-cama
Despertador-parentes-cama
Despertador-jogodefutebol-cama
Analisar o que?

Sei que o pior de tudo é que o fim dessa era magnífica de cronistas do cotidiano
Liquidou uma geração inteira de leitores
E agora quem lerá esse meu desabafo? Essa minha reflexão?
Hugo, Jéssica, alguém que procura por "rimas com Yuri" ou "jogos ordinários"
Lá de Portugal ou de Zimbabwe (que me importa?)

A revolução não se dará, como dizia o idealista Cristóvam, pela educação
Mas talvez a recíproca seja menos falsa

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Odisséia

A tecnologia nos desune
Enquanto os olhos choram
As palavras punem
Esse plasma é a esfinge de nossa era

A técnica nos desnuda
Porém não nos tira a verdade do tom
Qual é a tênue mentira
Ocultada atrás da cortina de teflon?

Será a vida? O grande amor? A sorte?
Talvez a face branca da morte
Talvez uns olhos de amêndoa
Da Cleópatra mais forte que há
Que dobra os homens como dois buracos negros
Como a maré puxa de volta o mar ressacado

A tecnologia nos desune
Quanto mais eu penso em você
Mais você some e o tempo me pune

Até amanhã, ao ano que vem, daqui um mês quem sabe
Tomara que os dias não ceguem o fio da navalha
Que as palavras não se percam esquecidas
Os livros deixados de lado
Beijos arrependidos
Não!

Enquanto a técnica nos ataca
As palavras são única saída
Ítaca
Palavras

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Para Paulo

Hipermétrope
olha atentamente
com seus grandes olhos engrandecidos
pelas lentes convergentes deitadas sob o nariz

Trata-se de um socialista
Um socialista hipermétrope

Literato conceituado
nos nomes mais loucos e refinados da literatura
sabe de cor declamar de Dante à Maiakoviski
e resolver as questões do vestibular

Trata-se de um socialista literato
Um socialista literato hipermétrope

Poeta sensível
às questões sociais e econômicas e políticas
escreve à la Pound
um provençal contemporâneo

Trata-se de um socialista literato poeta
Um socialista literato poeta hipermétrope

Ao cofiar sua barba volumosa
revela os fatos da Folha e da Gazeta
transforma o Flamengo em pauta crítica
é jornalista mais acurado que o mais esperto repórter

Trata-se de um socialista literato poeta jornalista
Um socialista literato poeta jornalista hipermétrope

Do Sabará ao Itaqui
de Itaperuçu, Fazendinha, Cepat, Centro Che
conselheira tutelar, movimento dos surdos, MST
campanha pra prefeito, diretório, Londrina, CPT

Um socialista literato poeta jornalista militante
Trata-se de ninguém menos
Que o camarada Paulo

sábado, 21 de novembro de 2009

Prolesia



Tu Voltas

Vida vai
Vida vem
Tantas voltas que se voltam
Que eu não conheço mais ninguém

Tento me lembrar de cada milímetro
Cada minuto
Cada sentido

É a cura de todos os malefícios:
Das bebidas, das drogas
Das troças, dos bixos
Das traças, das togas
Dos beijos, dos vícios
Das palavras e abraços
Dos braços dos beijos novamente


Tantas voltas que não conheço

Heroicamente me divido em dois
Esquecendo
(ou tentando)
Me jogo na vodka porque no tédio o camarada já sabe
Heroicamente me revelo em dois
Dizendo
(ou tentando)
Me jogo no telemóvel porque sou inclinado à sonoridade

Incitado por motivos transcendentais
Eu insisto como uma mosca
Resisto a todas as tentações - nunca olho pra trás
(só com o canto do olho)

O regresso dos meus sentimentos
Torna a domingos atrás
Quando eu lia nos teus olhos
Chegando na estação fumegante dos meus trens

Tanto voltas
Que mais ninguém
Mais a vida
Vida, vem!

sábado, 24 de outubro de 2009

A Virgem Pequeno-Burguesa

Ela que está em todos os lugares
Não se sente digna a dizer nada
E prefere ficar sozinha
A não ser que algum bruto lhe puxe pelos cabelos

Ela não fala nada
Não faz nada
Não acredita no que diz
Mas também no que sequer pronuncia
Porque é a mulher do nadanunca

Ser amada não significa nada pra ela
Significa mais fingir que alguém lhe gosta
Fingir que já é mulher
Mentir pra si mesma em silêncio
Sempre em silêncio
E velar sua virgindade como um segredo
Segredo público e notório

Ela vive nas superfícies da terra
E desperdiça sua beleza
Muda
Como uma pedra
Ela não pára de cair
Ela não pára de rir
Da minha cara
Sem saber que eu choro por sua vida mesquinha
Tentando entender o porque desse sentimento

domingo, 11 de outubro de 2009

Se Oriente

1

É o ar poluído da cidade
Que se esquece do branco
Fluindo como um líquido
Por todas as células
---------Órgãos
--------------------E organismos

É a aguardente que se esquecera
Da bica do bico e
----------Saliva

Despertar no Leste

Eu acordo semi-afogado
Um punhado de terra a mais
Cada dia na campa cai
Eu acordo semi-afogado

Esses olhos semi-cerrados
São cantados em tantos ais
Oriente que não me sai
Esses olhos semi-cerrados

Morde os lábios semi-molhados
Que beijados por vezes mais
Salgados com mais de mil sais
Morde os lábios semi-molhados

Afogarei minha terra do peito
Despertarei esses olhos do leste
Morde esses lábios umedecidos
Oriente que não mais me sai
Esse oriente ensandecido
Um punhado de terra a mais

sábado, 5 de setembro de 2009

Sabará

Eram casas e fumaça
Na desordem dessa vila
Ruas tortas e poemas
Sem vergonha nas esquinas

Num passado disputado
Carro a carro, braço a braço
Clandestina, ensurdecendo
Ouve-se a buzina

É o ônibus que já vem

Diria até que o rastro das vias pudesse ter te carregado
Mas de fato
Carrega toda gente

Eram prédios e expressos
No eixo principal do centro
Ruas retas sem poemas
E cinismo nas fachadas

Num passado conquistado
Tubo a tubo, ferro e fogo
Monumentos que intimidam
Veja o marechal gigante

É o ônibus que já vem

Diria até que o rastro das vias pudesse ter te carregado
Mas de fato
Carrega toda gente

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Gineceu

Mulheres partem da terra
O homem mora no inferno
De tudo o que ele enterra
Quem do monte cultiva uma flor - é ela

De tudo o que o homem encerra
Ela sabe reconstruir

O homem ferra
A mulher cobre
A mulher sabe
O homem erra
Ele carece
Ela carícia
Ele revéz
Ela reveza

O homem não suporta a solidão
Encerra a solidão
Sua solidez é o cinto-de-segurança
Insegurança
Insensatez
O nome do homem é "eu"
É seu

O primeiro pecado
Foi o primeiro predicado
A tristeza masculina
É um poço sem fundo
Sem água pra refletir cara
Sem corda nem futuro

Hoje, tudo é homem
Tempo inseguro e insensível
A luta da mulher
É a luta pela mulher
O feminino em cada grão de areia
Flor, carícia
A mulher que todos nós
Invejamos que talvez exista

domingo, 30 de agosto de 2009

Essa postagem é só pra avisar a galera que meu duo gravou novo demo
quem quiser ouvir as musicas é só ir no myspace http://www.myspace.com/duoquintessencia
abraços

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Se o óbvio acontecer
Nunca serei feliz

Abandonei faz tempo a ilusão de ser eterno

Eu não quero ser reconhecido
Como aquele homem - ponto

Sozinho

De metades o mundo não vive
Parece que ela não entende isso
Ou serei eu
O tal do ignorante?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Domingos Nascimento

Olá, posto aqui um poema que não é meu, foi-me passado pelo Felipe Drehmer, muito bom poema, de 1896

Perguntava a certos dias,
a certo padre um taful:
"Por que inundam bacharéis
tanto a América do Sul?"

Fica o padre pensativo,
Carrega o sobr'olho e cara,
e de pronto lhe responde
com voz pesada e amara:

"- Castiga Deus quando apraz-lhe
Em sua ira os fiéis;
Teve o Egypto gafanhotos,
o Brasil tem bacharéis"

Domingos Nascimento, 1896 - poeta curitibano

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Só por que não tinha bebido
Não quer dizer que ela não estava
Embriagada
Torpe
Trançando as pernas

De tanto amor
Ou mentira
Não sei ver diferença

Assim como eu
Que não importa o quanto tinha bebido
Fumado
Cheirado
Estava sóbrio como um otário
Como um anônimo
Como quem toma remédio e não pode

Eu não posso ver essas suas pernas
Trançadas ou não
São elas que trançam meu peito
Como uma cascavel
Mas a rima não veio
Não posso falar coração
Prefiro falar peito
Porque estou cançado de ter espectativas realizadas

Aquilo que é óbvio nunca pode acontecer

domingo, 2 de agosto de 2009

Exorcismo

Esse poema, juntamente com os anteriores, a partir do poema sem título abaixo, faz parte de uma série antiga, considere isso uma reciclagem de 2006, 2007 e 2008

Amava mais te amar do que te amava
Queria mais sonhar do que beijava
Queria mais te olhar do que falava
Sonhava mais teu seio
Olhava mais idéia
Minha Dulcinéia
Arrancada do meu peito
Você era o vento
O que eu amava era moer
E moia todo sentimento
Que remetia a defeito teu

Acabou meu ódio
Meu remorso
Xenofóbico

Agora tu não mais és
Apenas poesia ralé
Mas contigo percebi que
O eu me amava
E considerava você, eu
E deste egocentrismo embromador
Jamais sofrerei de novo

Adiós,
Que tu poesía murió.

Jogos

Eu não consigo fingir
E o destino faz chover
E a minha face faz sorrir

Há de haver uma caverna qualquer
Onde não chova mais

Cada pingo não passa
De um prego
Cada chão não passa
De cama
De madeira
De bálsamo e caveira

Parece que alguém brinca com meu diafragma
Nas vezes que me deparo com:
Jogos ordinários redundantes de anos no atraso

Mais uma vez que me esqueço
A natureza faz-me lembrar
E relembrar
É sofrer
E chorar pelo céu
É correr
Pelo chão

A Fuga dos Diversos

Quem caminha pelas bandas de baixo
Na mata atlântica virtual
Ou nas asas extintas da gralha

Pega um cavalo e galopa

Quem sossega pelas chapadas do meio
No serrado brasileiro
Ou nas copas das mudas de soja

Pega um tuiuiú e avoa

Quem balança nos galhos nortistas
Na hidrelétrica de igapó
Ou na surucucu trangênica

Pega um poraquê e choca

Agora um papagaio entra pela janela e fala:

Never More

Never

More

Efígie Impontual Atemporal

Após horas da madrugada
Incertas ainda que próximas
Queria apenas dormir
- Como queremos todos nós
Embaixo daquela água
A boca semi-aberta
Deixava tudo cair
Em uma hipnose
De olhos sem piscar
Apenas a concentrar
A umidade do azulejo
Nu em pêlo e em desejo
Queria apenas deitar
- Como iremos todos nós
Ao soluçar um pouco
Fraco e encolhido
Sentia o prazer
De ser ouvido
Por Deus ou por Satã
E o apego que tem o afã
Os tics e, um pouco,
Os tacs são os metrônomos
Dos balidos soçobrados
Queria apenas morrer
- Como devemos todos nós
Não sabia ele que
Contaria ao infinito
Pulos mirabolantes
Não sabia se tinha esquecido
De pagar a conta de luz
Não sabia seu endereço
Não sabia mais Jesus
Nem seu nome
Nem o alfabeto
ne

Sob As Barbas De Geraldo

Na ótica óptica de uma lente
Há mais vida que nos olhos
De um intelectual indolente

Assombra-me a simples verdade
De que nada mais é a morte
Além de um atributo da complexidade

Que pequenos quais estrelas
Setenta e cinco ângstrons
Separam a vida da antítese estreita

Mas tudo isso não impede As mãos de se apertarem...
Nada podemos no além
Nada podemos além de morrer
Vai além da vida a morte
Na vida a morte vai além

O amor além do desdém
O nada que vai além
Ao infinito final da vida
A morte querida
Outro lado do espelho
Foto minha
Essa realidade dolorida
Além da gaiola das minhas costelas
Transcende
Em ecos ouvidos da eternidade

Como embaixo d’água visse
Tua face mirabolante
Num sorriso soluçante
E nos portões de além-mar
Lágrimas em minha cara
Vermelha em mastro
Nos corações de além-amar

O Pombo

Óbvia referência ao Edgar Allan Poe, como esse poema é grande demais pra um maionese e não caberia numa folha acadêmica aqui vai ele
Singela homenagem a José Paulo Paes no final do poema, que é antigo ja...

O Pombo

De Edgar Allan Pombo

Voou na noite clara, céu vermelho,

Anunciando a peste um pombo negro.

No solo, em suas vestes,

No diretório agreste,

Um estudante puxa do seu peito,

Bruscamente, terrível documento.


À surdina, ocultados no breu,

Seus cúmplices encaram o papel

E tiritam e tremem,

Parece até que sentem

A injúria que fazem a seus colegas,

Política que lhe fazem às cegas.


Sob a luz trêmula do celular

Suas penas ríspidas a riscar

Vacilam, temerosas.

Porém, são orgulhosas

As mentes daqueles oportunistas,

Rumo a se tornarem especialistas.


Pronto. Essa sentença foi lavrada.

Mas a execução também foi cravada.

Desejam vomitar.

Ficam no desejar.

Mas antes de conseguirem fugir,

O pombo os impede. Começa a rir.


Eles se detêm. Um deles murmura:

“Qual será o tamanho dessa atadura?

Será que temos chance?”

E o pombo, de relance,

Olhando-os e postando-se atrás,

Sinistro pronuncia: “nunca mais!”


Todos, amedrontados, estremecem.

Será que é remorso o mal que padecem?

“Quem está a nos zombar?”

Disse tentando achar

Alguém camuflado, pregando peça.

Mas não havia ninguém na travessa.


E outro deles, tremendo, disse então:

“Prometemos essa conciliação,

E sofremos pressões,

Sem manifestações!”

Mas o pombo negou-lhes a paz:

E novamente disse: “nunca mais!”


O medo da multidão na avenida

É o medo de mudarem suas vidas,

Entender a verdade,

Ver a desigualdade,

Sentir no outro extensão de si.

Crer e compreender que é possível sim.


Um diz: “vou te matar, ave fajuta!

Consigo tudo com a força bruta!”

Contra qualquer baderna

Esse homem da caverna

Lutava em vão, pois palavras reais

Trazia aquele pombo: “nunca mais!”


“Tolos radicais, não somos culpados

De querermos nos formar já empregados!”

Disse com muita pompa

Desafiando a pomba

Uma menina mesquinha e egoísta

O caráter público nem à vista.


Voa o pombo mais perto dos alunos

Vê-se escárnio no seu olhar profundo

“Saia! Não és nem corvo!

Basta de tal estorvo!”

Mas o pombo disse palavras tais

Que os aterrorizaram: “nunca mais!”


“Minha luta é pela minha empreiteira!

Tenho muito dinheiro e sou herdeira,

Não se meta comigo,

Ou sequer um amigo

Vai te dar um emprego! Disse ela.

A ave mofa a voar pra janela.


Mas ave de curto vôo, o pombo

Sorri de pena, murmura de novo

As tais palavras vagas

Não absolve ou condena

Apenas pronuncia contumaz

As palavras infernais: “nunca mais!”


sexta-feira, 24 de julho de 2009

Esse cheiro

Esse cheiro...
Esse cheiro sou eu
Minha pureza abandonei há muito tempo

Agora em minhas mãos
Nos meus dedos
Embaixo da unha
Esse cheiro...

Calei a boca dos meus pulmões
Construí barricadas nas minhas artérias
Fiz piquetes no meu sistema nervoso central
Joguei pela privada os comprimidos
As receitas
Os estetoscópios

Ando me cuidando demais ultimamente
Quantas doses serão necessárias
Pra me destruir os pedaços dos rins?
Um pouco de masoquismo cai bem
Somente a autofagia nos une

Mas nisso não vejo mais graça nem dor
Preciso mesmo
É flagelar um pouco você

Ah! Pegar sua garganta c'os dedos
Encostar você na parede com tudo
Forçar violento o gosto do seu batom
E te jogar no chão!

Não te violentaria
Porque não pago por sexo

Agora é na minha boca
Esse cheiro...

Cuspirei nos baldes da razão
Que de tanta saliva estão cheios
Tão cheios que estão
Que nem tem mais razão em sê-los

Esse cheiro...
Esse cheiro é o desejo
É o cheiro do não

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O Ex-calvo

O homem de meia idade
Em crise, avaro há dias,
Mira-se no espelho:
- Tudo menos ser calvo!
- Tudo menos careca!

Apesar dessa mágoa
Os ralos fios do pobre
Deputado eram lindos
Eram tão bem cuidados
Que a cabeleira enorme
Dos sem-cabeleireiro
Ficava se mordendo
Tamanha era sua inveja

Mais liso que a careca
O calvo foi esperto
O doutor fez milagre
Cobriu o descoberto

E agora o deputado
Quer ser governador
Não quero moral nenhuma
Porque toda moral é burguesa
Quero derrubar a moral
Como em Berlim derrubaram o muro
Dar um murro em toda moral
E fazer um mural sobre o burgo

Aquele que preza a moral é um burro!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Lugar Comum

Todo mundo sabe a velocidade
Com que o destino arrasta nossas vidas.
Enquanto alguns já dão as despedidas,
Estamos nós na flor da mocidade.

Porém, não é somente por vontades
Que nossas coisas são feitas e ditas.
Embora eu não entenda o que é verdade,
Tu ouves minhas palavras inauditas.

Minhas poesias, quero dá-las todas!
Vão-se, versos! Palavras feias e tolas.
Depois do fim que só sobrem retratos.

Minh'alma vou vender a quem passar!
Dor eterna no inferno?! Nem pensar!
Intermedeio ao diabo este contrato!

A Frase do Dia

A frase do dia é: grandes são
Mas tem tantos outros dias com tantas outras frases
Que nem vale a pena guardar frase alguma de dia nenhum

Apesar disso
Parece que todo dia
A mesma frase permanece no meu calendário:
- grandes são

O poeta estava certo
Não em ser poeta
Mas em ser amargo
E em não entender o tremor das pernas
Que tremem mesmo quando não tremem
E dançam sem querer dançar
Mesmo quando não se movem

Às lágrimas! ah, as lágrimas, tsc tsc
Já me acostumei com elas
Ainda assim
Eu não tenho medo do amor
Mas é o amor quem tem medo de mim
E sai correndo

Nesse jogo de ponta cabeça
O adversário não vem
Embora eu já esteja de uniforme vestido
E é sempre ele quem ganha de W.O.

Eu fico com o W. C. mesmo
E não compreendo as coisas ridículas
Apenas, como sempre,
Espero
E quando enfim a tempestade de desespero me exaspera
A aspereza do vazio me faz todo chão parecer um buraco
O ar, sim,
É um imenso buraco escuro em que me sinto caindo eternamente
Um poço profundo que não produz eco
E eu por dentro grito
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAaaaaaaaaaaaa
Mas é um grito abafado por travesseiros de outros quartos

Ela sempre disse não
Mesmo quando disse sim
E eu pensava que minha face descolaria
E que mandaria pro diabo qualquer carnaval da minha vida
Minha vida sim,
É um carnaval
Um baile de máscaras
Mas de tão desgastadas pelo tempo e pelas interpéries
Que os pierrôs deformaram a própria cara
Porque mais caro é o embuste
E nessa farsa tragi-cômica
Cômica porque ridícula
As columbinas são todas prostitutas
E eu
Um pobre, um pé-rapado, um desgraçado, um verme, a gonorréia e olhe lá

E a frase da noite?
Tudo é grande

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O Peregrino Apaixonado

Esse é um poema de Shakespeare, tentei traduzi-lo, acho que a tradução ficou melhor do que a da Go, Lovely Rose, mas é claro que ainda não está aquelas coisas...


The Passionate Pilgrim


13


Beauty is but a vain and doubtful good,

A shining gloss that vadeth suddenly,

A flower that dies when first it ’gins to bud,

A brittle glass that’s broken presently;

__A doubtful good, a gloss, a glass, a flower;

__Lost, vaded, broken, dead within an hour.


And as goods lost are seld or never found,

As vaded gloss no rubbing will refresh,

As flowers dead lie withered on the ground,

As broken glass no cement can redress:

__So beauty blemished once, for ever lost,

__In spite of physic, painting, pain and cost.


O Peregrino Apaixonado


13


Beleza é bem duvidoso e vão,

Brilho ofuscado de repente,

Uma flor que morre ainda em botão,

Vidro quebrado no presente;

__Bem duvidoso, um brilho, um vidro, a flora;

__Perda, fusco, caco, morto em uma hora.


Qual perda é vendida, jamais achada,

Qual brilho fusco esfregão não refresca,

Qual flor morta, cai no chão, murchada,

Qual vidro em caco nem cimento mescla:

__Beleza uma vez manchada, perdida,

__Embora arte, ciência, dor e valia.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Voar

Está na hora de apaixonar-me.
E nem sou eu quem disse tal coisa,
Tudo me pulsa em volta de mim,
Indicadores dedos me cercam
Acusando minha solidão.

Mas é como se fosse um espelho
E reflete uma rosa vermelha
De casaco, cometas, estrelas.

Multidão se coloca entre nós,
E nos afasta cada vez mais.

Para o inferno esse pessoal!
Quero cetim nesse firmamento.
Para que assim possa nele firmar-me
E chegar a ti entre as luzes.

Dizer que isso tudo é verdade.

Voar pelo céu em carícias.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Brado do náufrago

vejo ainda o nobre
meu inesquecido ainda amigo
cabelo de cobre

Esse é um poema que eu ganhei no meu aniversário do ano passado. Presente anônimo, pois foi um comentário de um poema meu. Revirando o blog, o encontrei e relembrei. Vale a pena publicá-lo, em homenagem a(o) inominad@ autor (a).

domingo, 12 de julho de 2009

Excerto

Antes achava que tudo era sentimento
Lia todos os poemas
Silenciosamente
Escrevia toda poesia
Intersubjetiva

Mas compreendo hoje
A liquidez do tempo
Nos corrói o ferro dos neurônios

Acontece que esse liquido histórico
Congelou com o passar dos anos e seus ventos antárticos
E o sentimento perdeu em demasiado seu valor

No século vinte e um
As coisas se parecem muito com o século dezenove
Tenho eu mesmo meus dezenove quase vinte anos
E já compreendo
Poesia não muda nada no mundo
Mas ajuda

Olhando meu passado
Com o coração pintado
De verde e amarelo
Digo:
- a militância me salvou

O amor também
Talvez sejam duas faces de uma mesma
Como se diz?

domingo, 5 de julho de 2009

Contextualização

Quero escrever, camaradas
Com toda saliva saindo pelo papel
Que no meu tempo
Eu
Sei das coisas

No meu espaço
Deixem-me
Que eu me viro

Agora quanto àqueles que se fingem à minha pessoa
Desses que só sobre meu cuspe

Não sei mais
Da China
Os acionistas de Xanghai
Continuam a dar gargalhadas
Nem da Nicarágua
Ou da Costa Rica
Honduras anda aos prantos com Zelaya
E as Nações Unidas - meus caros,
os mesmo que jogaram às traças do leste europeu a nação dos charutos -
clamam pela ilegalidade do corrupto do mesmo partido do anterior presidente

Também não sei
Se o Álvaro de Campos
É ou não Fernando Pessoa
Do mar português
Somente vejo borrascas financeiras
Nada de mulheres bigodudas com seus pasteizinhos de Belém
Mas o Álvaro - meus caros - sabe bem o que dizer a esta era:
"nuncaconheciquemtivesselevado porrada!"

Que se vão para o espaço todas essas lantejoulas dos anos 90
E que se vá para órbita
Como Yuri Gararin
O cosmonauta soviético
Heroi nacional
Essas ações da Lehman Brothers
Esses títulos de créditos do governo norte-americano
Os imóveis hipotecados de Wall Street

Essa rua de paredes
Rua The Wall - totalmente adequado aos padrões Floydianos
Pedra sobre pedra se erguem esses burgueses
Pedras retiradas da muralha da China
Pedras de crack roubadas da Rua Riachuelo
Pedras de gelo das banheiras militares
Pedras doiradas do caminho maravilhoso do Mágico de OZ!

Então, camaradas
Peguem suas máquinas
Tirem esses óculos
Limpem essas lágrimas
Desfaçam todos os laços
Que essa existência é um ócio

Somente a luta é que dignifica
A luta é sempre sanguinolenta
Consome os dias como o fogo consome oxigênio
E deixa as costas duras e os nervos doendo
Mas é ela, camaradas
É ela! Não a mesma do Álvaro
A mesma do Álvarez
E o eco, ainda longe, respondeu:

Celso Eidt... so Eidt....... Eidt
Camaradas!

A realidade
Só se aprende
Se se enfrenta
Defronte o espelho
É que nos vemos
A nós mesmos

E o mesmo cão
Cujas pupilas refletiam o céu
- de talvez Curitiba -
Refletem agora a complexidade:
Crise de dinheiro inexistente
Revolta no Irã de aiatolás
China maior credor dos Estados Unidos
Brasil munido de Odebrecht
Greve do INSS decretada ilegal por Lula da Silva
Camargo Correia dando dinheiro ao Partido dos Trabalhadores
e a lista continua ad infinitum

E agora José?
E o amor?
Será simples ainda?

Riram agora, com tais palavras
Muitos Líquidos analistas
Ex-comunistas
Ex-personagens da pós-modernidade

Porém eu sei
Camaradas
Eu sei onde está a simplicidade
Onde está a totalidade
A dialética
A estética
A luta de classes



Itaqui, São José dos Pinhais
Vila Sabará, Cidade Industrial de Curitiba
Calçada da Fazendinha,
Solo onde se deu à luz a três
Repito
Três crianças nasceram na calçada
Numa favela edificada no meio-fio

E 300 policiais, dois por cada resistente morador,
Deram conta do recado
Que liquidês há na tropa de choque versus pobres sem destino?
Somente se houvesse sangue
O visco líquido que o Capital aprendeu a beber

Sim José, camaradas
A luta é simples como água e pão
E reflete nas pupilas de cada cara marcada de Sol
O Povo só tem o Sol acima das cabeças
E ainda assim, canta
Mas ainda abraça o inimigo como se fosse um irmão

Basta de paz nessa terra!
Façamos a guerra!
Pois só pode haver paz depois da guerra
E vida na luta,
O pão nosso de cada dia
Nos dai
O pão das crianças da ocupação da calçada
Que ficaram sem comer desde às 5 da manhã
Eram onze horas
E sua fome maior era de casa
Pois haviam sido despejadas
Por 300 policiais
Às 5 da manhã

Eis o que chamam Luta de Classes
Eis o que chamam Militância

Havia vida ainda
E era só o que havia
Era só o que se via

Mesmo se eles morressem
Todos eles
Habitantes históricos da calçada
Ainda assim
Haveria ainda vida
E somente se veria
Quão lindos
Quão linda
Que peso
Que vida!

terça-feira, 30 de junho de 2009

Ide, rosa linda!

Minha primeira tradução, sem nenhuma pretensão, mas eu gostei...


Ide, rosa linda!
Contais que perdeis tempo, e mim,
Que ela sabe 'inda,
Ao compará-la a vós assim,
Sê doce e bela qual carmim.

Dizeis que é moça,
E evita expostas graças ter,
Que desabrocha
N'ermos sem ninguém a se ver,
Tem de inexortada morrer.

Pouco se importa
Beleza da luz retirada:
Lançai-la ao norte,
Sofrendo-se a ser cobiçada,
e não corar, admirada.

Daí morreis! Que ela
Das coisas raras comum fado
Possa em vós lê-la
Quão pouco tempo divisado
Que são tão doces, quanto belas!


Ou em segunda pessoa singular


Vai, rosa linda!
Contas que perdes tempo, e mim,
Que ela sabe 'inda,
Ao compará-la a ti assim,
Sê doce e bela qual carmim.

Dizes que é moça,
E evita expostas graças ter,
Que desabrochas
N'ermos sem ninguém a se ver,
Tem de inexortada morrer.

Pouco se importa
Beleza da luz retirada:
Lânça-la de norte,
Sofrendo-se a ser cobiçada,
e não corar, admirada.

Daí morre! Que ela
Das coisas raras comum fado
Possa em ti lê-la
Quão pouco tempo divisado
Que são tão doces, quanto belas!

sábado, 27 de junho de 2009

Go, Lovely Rose!

Pela primeira vez posto neste blog um poema que não é meu, este é de Edmund Waller,
é um poema muito bonito

Go, Lovely Rose!
by Edmund Waller

Go, lovely rose!
Tell her that wastes her time, and me,
That now she knows,
When I resemble her to thee,
How sweet and fair she seems to be.


Tell her that's young,
And shuns to have her graces spied,
That hadst thou sprung
In deserts where no men abide,
Thou must have uncommended died.


Small is the worth
Of beauty from the light retired:
Bid her come forth,
Suffer her self to be desired,
And not blush so to be admired.


Then die! that she
The common fate of all things rare
May read in thee
How small a part of time they share
That are so wondrous sweet, and fair!

O Fim da História

Não quero soar repetitivo
Nem na forma
E muito menos
No conteúdo

Mas
Apesar de eu ter uma visão materialista da vida
A vida insiste
Em ter uma visão pós-moderna de mim

A história que se repete
A história que se acabou
A história líquida
que escorre pelos dedos

Somente a minha história
Que é cheia de muros
Serei eu mesmo um outsider?

E porque
Explorado como um operário
Não consigo reagir
Nem me organizar
Nem escapar da inefável derrota?

A primeira reforma
Totalmente vazia de tudo
Zombou de mim
Tinha que ser assim
Sem vontade
Sem verdade

E permaneço escrevendo
Anacoluticamente
Mentiras pra mim mesmo
Sob o jazz da vitrola
Digitando
(não pode haver coisa mais artificial)
Degolando...

O problema é que continuo
É que continua
Não olharei mais pra nada
O partido
A bandeira
Não
Fecharei meus olhos
Porque não adianta
A ausência
Ninguém sente

Ninguém

sábado, 20 de junho de 2009

Se Oriente

5

Mil e uma noites atrás
Eu estava Confúcio
Aprendia sem pensar
Moderava-me e perdia
Via o bem e não fazia

Mas agora é diferente
Os mil caminhos traçados
Nestes teus lábios molhados
Nessa tua língua delgada

Os olhos agora se eclipsaram
É lua nova no céu

A tartaruga negra lá em cima me falou
“Era tempo de guerra
Sem dó – sem perdão
Passo por passo as estrelas caem
Em sua própria escuridão”

O pássaro vermelho desceu
“Vida vida, quanto tempo temos ainda?
Nesse mar de ilhas
Eu só vejo as espadas de sangue
Eu só vivo a paixão dos assassinatos”

O dragão azul enterneceu-se
“Chorando do céu negro da noite
É hora é hora
É tempo de guerra
Mas é tempo de vitória”


E o tigre branco se calou
Afiou as garras
E ordenou com dois gestos

Que o sol nasça por favor!

sábado, 6 de junho de 2009

domingo, 24 de maio de 2009

Novamente ou exercício de rima e métrica 2

Novamente eu falava
Chamava-te sozinho
E tu nada dizias
Seguias teu caminho

Passavas sem palavras
Calavas meu olhar
Que tímido caía
Temia te amar

No cabelo flor branca
Que franca qual formosa
Trazia um quê sensual
Fatal e poderosa

Ao tocar minha mão
Em vão na tua pele
Trazia uma mensagem
Coragem se revele

Mas eu ‘inda soturno
Noturno a esta ternura
Caí num desengano
Secando a formosura

Qual samba assim me calo
Não falo e tudo penso
Eu quero-te ao meu lado
E o fado passa lento

O Nosso Hoje Em Dia

O nosso hoje em dia

É tão externo a mim

Que não entendo espelho

E me sinto um indivíduo


Estou cansado desse egoísmo


As lágrimas são geadas

Que orvalham minha face

Toda manhã, toda existência

E seu peso quebra meus pulmões


E eu não choro nem respiro

Nem espero nem encerro

Nem espirro nem gripe


O nosso hoje em dia

É outro que não sei

É boa noite

E tudo bem?

Tudo mal

Como a fruta comida verde

O prédio que moramos

Sem pintura

A rua vazia


São outras pedras no meio dos caminhos

Pedras de crack

São outros céus que divisam dia e noite

Céus vermelhos


O nosso hoje

Mantém-se dia

Em nós somos noite

Que precisa ser orvalhada

Mas só a manhã poderá ter um sol

Vermelho


O nosso hoje em dia é apenas mais um dia

Mas o nosso amanhã...

terça-feira, 12 de maio de 2009

Ponto no céu d’Andrade e Seus Bancos

A tantos mil pés acima do solo
Refugia-se, em asas na torrente,
De eixos criminosos com culpa e dolo,
De penas e bicos cheios de dentes.

A enxaqueca ignora o que há além dela,
Qualquer ave que só procura aviões,
Mas olha pro céu por meio da pedra
Depois de acordar do banco em visões.

Todos os bancos estão ocupados.
Todas as pombas já comem migalhas.
Crimes profanos se livram no azul.

Mas perde a vista o olho arregalado,
O ponto já despenca da batalha,
As noites do norte acordam no sul.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Caximba

Estou no meio do nada

A dez quilômetros de tudo

Na margem sul da cidade

No lixo


Porém a mesma escuridão

Que nos esconde na linha turismo

Só a nós

Permite ver as estrelas

quarta-feira, 25 de março de 2009

Como pode?

Como podem
Falar de fumaça
Quando meu peito
Carece de ar
Como pode o vento apagar
Varrer a areia
Levar as flores
Como podem fumar
Seus charutos
Quando mal aspiro
Este ar rarefeito

Fundo
Bem fundo
Sob a campa d’imbuia
Nos brônquios
Arfo fundo
Como um chorão
Que dorme alheio à luz

Como pode a luz
Anunciar o Sol
Quando a noite
É eterna
No lavabo subterrâneo
Como podem cofiar
Seus volumosos buços
Levantar seus braços
Enquanto outros
Carregam no esquife
Uma senhora
Tão menina

Como tão fundo
Aquele metro e meio
O ar tão rarefeito
Pesada a cabeça

O poder de dispor
De transportar para a ponta dos dedos
Todo o peso do corpo
O poder de cair
Uma ultima vez

Como pode uma senhora
Ser tão menina?

Realmente quis dizê-lo

E te disse – beijo

Mas lábios de adeus

Também Judas já deu

sábado, 14 de março de 2009

A Erupção

Sinto meus dedos formigando inquietos.

Nas vias escorrendo feito água
Mendigos, prostitutas, indigestos
Que num gesto de esquecimento e mágoa
Congelam esse fluxo violento
Como uma barragem sólida e vácua.

Confundem-se com o solo macilento,
Repousam como pedra nas calçadas,
Estátuas arruinadas pelo tempo,
Pedras de fato, que quando chocadas
Produzem a faísca poderosa
Que apenas essas abandonadas
Causam no peito daquelas honrosas
Pessoas desvairadas e sensíveis,
Que inda sentem o odor das rosas,
E que palpitam, incompreensíveis.

Agora, a tal faísca fez-se brasa,
Levantam-se mil sonhos infalíveis
Acalorando dedos, solo e casa.
Ao fazer do mundo um grande deserto
Dá-se conta da chuva que se atrasa.

Como não houvesse ninguém por perto
Os tubarões os perseguem famintos,
Naquele limbo de existência, incerto,
Eles nunca hão de se tornar extintos
Pois há carne demais, que não se basta,
Por mais que às vezes falhem seus instintos
A dose de coitados é tão vasta
Que não cessam os mortos no caminho.

Com isso, tudo que se vê, se afasta,
E se sente cada vez mais sozinho,
Naquela brasa é fogo que se acende.

Raiva, medo, mas o amor e carinho.

Tudo novo e vigoroso se fende,
A indiferença de antes já se fora,
Agora a verdade já se compreende

Sem a explicação lógica, motora,
É do peito até os braços se sente
Uma imensa força transformadora.
Que venha a dor que virá lá na frente!

E desta forma será vitoriosa
A luta que travamos diariamente.

Todos daquela extirpe desonrosa
Tombarão perante a chuva de rochas
Cadentes que na vertente ruidosa
Incendiarão ao povo como tochas.

É fagulha e brasa, é fogueira e incêndio.

Barricada, trincheira que se atocha
E o trabalho, sacrifício, dispêndio
São mãos, que pegam nas pedras e batem,
São todos os livros em um compêndio,
Todos os sonhos antes que se acabem,
Todas as armas antes da batalha
Todas as vozes antes que se calem
O pranto das mães, que cai na toalha
O destino de toda humanidade
Dos que dormem no mármore ou na palha

Jaz no peito dos revolucionários!

No fogo aceso na calamidade
Valores forjam atos Incendiários
Que revelam para o mundo a verdade:
– Tão pouco do meu sal vira salário.

Assim é o tal nosso mundo, um vulcão.
Mas a potência que o faz ascender
Imerge em cada braço e coração

Essa nossa história deve morrer

Para que enfim comece a comunhão.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Um poeta na casa dos pais
Lembra-se dos tempos de criança

Mas nenhuma criança é poeta

Cair

Um homem e seu segredo
Outro ledo engano
Como a lógica dos brinquedos
Descartáveis

E ele pensa que ninguém sabe

As damas todas distantes
Como o vento que vem antes
Da chuva de canivetes
De diamantes

Que nunca caem no momento certo

Antes que a água acabe em deserto
Haveremos de beber
Devemos nos embriagar
Até levantar
E cair
E morrer

Que nunca caiam no momento certo