quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sobre Morretes


Morretes,
Tu não morreste.
Durante os séculos não perdeste
A essência viajadora dos
Vagabundos desbravadores .
E teus valores prostibulais
Permaneceram.
Mas nunca mais
Tu vais ser
A porta do jardim do saci

Sobre o Nhundiaquara


O Nhundiaquara me parece uma
Máquina do tempo: o tempo da capela
Eu vejo nas correntes tranqüilas sangue
Mas também barro
Eu vejo pardos e pretos e Oxum triste
Chorando cachoeiras
Eu vejo bandeiras
E todos os carnavais
O Nhundiaquara não desemboca no mar
Sua foz é 1715 no interior rochoso do Marumbi
O Nhundiaquara ta aí

Fogueira

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A Poesia e o Pão

A poesia
A gente precisa dela
Porque senão
O pão
Se torna apenas um par de maõs
Vazias

As pessoas humildes
Com suas mãos no bolso
Elas têm umas às outras
Coisa que as faz
Mais de uma

Que seja dito
A poesia é um mito
Eu apenas rimo
Porque tenho mimo
Embora essa rima seja muito pobre
É muito mais rica que
Um trabalhador que ganha um salário mínimo

Pra quem não tem poesia
O pão é apenas
Duas mão vazia?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Janela Abandonada



Pra onde se vai em busca do nada?
Tudo o que queremos é não

Tem uma janela abandonada
E é apenas ela que foi deixada de lado

Caminhamos silenciosamente em direção a ela
Naquela casa diferente
A qual repito - não está abandonada por inteiro

É triste olhar pro que resta de uma janela
Dava pra ver o mar e o horizonte azul
Quando chovesse devia ser terrivelmente maravilhoso

As paredes depredadas e charmosas
São parte constituinte da liberdade
Vamos pichar o concreto inteiro da cidade - os tribunais, a faculdade, o shopping

Aquela janela abandonada
Não dá pra nada
E é esse nada que eu busco que eu amo que eu desejo

Caminhamos como de mãos dadas
Vocês podem ver
Como o fim une

A finalidade pode ser
Um início de ausência
Nossos pés são guiados até o fatídico quadrado

Nesse portal enlouquecido
Ouve-se um brado - presta atenção

...................silêncio absoluto...................

Sentia-se cada passo
Como um compasso
E a água murmurava segredos pra quem entende

Não vou contar nenhum
Por decoro e sabedoria
Os meus segredos murmurados entre as quadro paredes depredadas
Foram todos revelados
Ou serão
No momento em que da janela poderei ver
Um verde-mar diferente

Dezenova

Minha estrela brilha mais uma vez
Se ao menos conseguisse ver o céu
A fumaça e a luz artificial...

O Sol
Carregou-me em seu colo de ouro
Por mais um ciclo
Sua órbita solitária e etéria se alterou

As coisas não parecem terminar
A névoa desvela o que o olho insiste em acreditar:
Não há limites entre tudo
Como se fossemos uma só existência se movendo

Nessa décima-nona estação aduaneira do universo
Eu me sinto mais uno
Do que verso

Nesses dezoito caminhos
Revi os anos de infância como um homem
Mas nunca fui um homem
Não sou um homem

Nem criança
Nem jovem

Sou o polo norte no inverno

Mas nada tem fim
A findura do que sinto
É o começo do que vem

Sou homem
Também

E se o cosmos conspirar a meu propósito
Serei enfim
A orgânica parte
De algo maior

Serei o agricultor
Serei Pedro Pomar
Serei Bolivar
Serei João ninguém
Serei Vinícius e Tom
Serei Leminski
Serei você
Que me ama e eu não sei
Serei ela
Que eu amo
E
Se o rei do espaço
Tem rainha
E se tem uma princesa africana no Brasil

Eu reivindico minha descendência:
- Sou filho de professor, de operário, de camponês
E por isso sou rei do universo
E você também

Mundo cruel
Mundo injusto
Pro inferno essa vontade de chorar

O infinito não passa de um oito deitado
8 do 8 do 8

Realmente
As coisas não acabam
Por isso esse poema não tem fim

Ao Silêncio

Ao silêncio externo a nós
Oceano
Todos os santos girando
E cantando canções de Orixás

A água doce da queda
Tem uma voz tão suave
Que parece a ausência de som
Tão linda a voz de Oxum

Por quanto tempo conseguimos nos abraçar?
Sem parar nem pra comer
Nem pra respirar
Sem pretensão de fim
Apenas sentindo a quentura dos corpos
Confortáveis

Ah!

É neste silêncio
Que nossos sorrisos mais ternos
Nossos olhares eternos
Serão as vozes mais lindas
De uma cantiga sagrada

Quando estou quieto
É porque quero
Quando quero
Fico quieto
Mas só falando pra quedar a vontade
Por isso cantemos
É mais bonito

Ao silêncio interno a nós
Não menos oceano
Nossos corpos girando
E cantando canções de Orixás