terça-feira, 15 de julho de 2008

Escritório

Estou sentado no meu escritório
Longe de aconchegante
Traz nada de inspiração

Noutro tempo
Noutro escritório
Fazia uma petição
Inicial

Era só mudar os nomes
O juiz
A data
A vara
Pronto
Tava lá se fodendo mais uma empregada

E tudo
Porque me inspirava
No mármore do escritório

Hoje não
Nem água
Nem pão
Mas preservei um pouco meu peito
Do remorso

Estou ao lado de um toca-discos
E tenho alguns vinis antigos
Tenho um violãozinho
E uma janela que dá pra mil vizinhos (nenhum vizinho)

Naquelas eras minimalistas
Saía de noite
E me entristecia
Imensamente

Passava por barraquinhas que vendiam quentão

E o frio que fazia

As tardes de hoje parecem vazias
Mas antes só
Do que mal acompanhado

Aquele escritório
De divocacia

Mais parecia

Uma segunda cadeia
Do oitavo patamar

Mas ali eu era carcereiro
E tratava tudo com falsidade

aaaaaaaaaaaa Não eram pessoas
aaaaaaaaaaaa Eram papéis

aaaaaaaaaaaa Não era exploração
aaaaaaaaaaaa Era processo

aaaaaaaaaaaa Não era chifre em cabeça de cavalo
aaaaaaaaaaaa Era pesquisa de jurisprudência

E agora eu sentado sozinho
aaaaaaaaaaaa Pra variar
Escrevo essas histórias
De pessoas automáticas

Musico poemas cafajestes

Absorvo milhões de musicas
Roubadas da internet

Neste escritório
De desvocacia

É que eu me deparo
Com meu fantasma apagado

Nada vivo
Mas ao menos
Um morto arrependido
Que espera no purgatório
Quem sabe

Quando eu tiver meu próprio
Mas aí não se chamara mais escritório

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