sábado, 28 de junho de 2008

Arrogantes famigerados
São aqueles
Eu vejo mais por cima
E me sinto lisonjeado

Que mentira

Nada mais triste
Que não viver
Porém eu sei
Que não se pode ser feliz
Querendo tão bem

Beligerantes intocáveis
São estes
Os sinto abaixo
E sou por eles maltratado

Que mentira

Coisa mais linda
O par mais verde
Tenho consciência
Da lisonja puríssima
Quintessência

Terreiro

É na caixa
Que fica batendo
Freneticamente
Em ritmo aéreo
Que induz ao transe absurdo

Tum tum
O chão se entorta
Tum tum
O seio da terra
Tum tum
A voz dos pais
Tum tum

Quando rodo
A tontura dos meus pés
Com tua face esbarrará
O que nego qué
Faz nego chorá

Zum zum
As coisas ampliam
Zum zum
Todas as cores no céu
Zum zum
O silêncio
Zum zum

Naquela vez
Veio de dentro de ti
Um vapor purificado
E tu sopraste nos meus olhos
E fizestes-me cair no chão

Pedra preta diz:
Pandeiro tem que pandeirar
Pedra preta diz:
Viola tem que violar
Pedra preta diz:

Dor tem que
Dorá!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Soneto da Janela Noturna

Ah, meu Deus, que peso atlântico!
E eu sigo a fitar estrelas,
Mesmo sabendo que apenas
São reveses num tom flâmeo.

Reveses das lamparinas
Da rua. Meu arcabouço
Quebrado grita, menina:
Minha pleura, meu calabouço.

Mover-me, é lancinante
Dor. Assim, resto sozinho.
Nos ombros, o mundo – tu

Proferir-te emocionante
Oi, ver o lácteo caminho.
Amor, vai tomar no cu!

Ninguém Sabe

Ninguém sabe
Ninguém entende
Quando nada mais cabe
Nada mais se sente

Sou como um pássaro
Uma pomba
Pareço legal
Mas meus piolhos te matam

Sou como uma cama
De mármore
Ninguém se deita
É gelada e dura

Sou como esse poema
Inútil
Feio

Sou como um mato sem cachorro
Eu sou o mato
Você é uma cadela
Eu te odeio

Chega de dizer – eu quero
Faz anos que repito
E por isso sou como o papagaio

Mas chega de dizer – sou como
Eu não sou nada não
Estou sendo agora
Um bobão
Que se sente muito mal

Mas ninguém sabe
Ninguém entende
Quando a esperança acaba
O amor se estende

semente

Eu como todas as sementes
Não dá mais
É uma angústia
Sem fim
Sem cerejas

Estou à beira de uma catástrofe
E somente tu podes me matar
Porque desacredito todas as profecias
E tu me dizes que desistes

Eu como todas as sementes
E dentro da minha cavidade abdominal
Nasce uma árvore medonha
Que dilacera meu corpo
Que rouba minha alma
Pra crescer e se tornar um tronco podre e negro

Não vivo
Nem sou feliz
Portanto nem existo
Apenas choro
Amei tanto

E não desaprendi a escorrer pelas ruas sozinho

Eu só me infernizo
E tua fantasia
Me faz encolher cada dia mais

Meu peito dói muito
E minha desesperança me comove
Me move para o buraco sem fim
Meu passado
Não quero revivê-lo
Quero esquecer
Meu presente maldito
Minha estrada malfadada

E tu me fazes um desgraçado
Um idiota
Que não acredita em nada
Tudo perde a graça
Eu te quero
Eu te amo
Mas não é só dúvida
É também
Um vômito que leva junto
Todo meu corpo pra privada imunda
Do inferno

Dói
Mas uma dor que não acontece
Não aconteceu

Por favor
Deus
Anjos
Ciência
Qualquer coisa
Eu preciso
Ou morrer
Ou cantar

Eu só choro e me espanto
Te espanto
E meu pranto
Só te faz ter pena
E ir pra casa sozinha
Sem nem sequer dizer adeus
Enquanto eu me jogo de todas as janelas
Ainda me dizem que meu caminho me leva pra ti
E a coisa que eu mais queria era acreditar
Mas não dá
Eu não consigo
Eu só me finjo de vivo
Pra não me enterrarem de uma vez
Eu só não quero ser enterrado
Porque
Não sei

domingo, 22 de junho de 2008

Quero ver teu olho em mim
Quero verter olho sim
Quero ver ter olho assim
Só sei que teu olho quer a mim
Como mim quer ter olho em ti
Olho tim com mi ter são
Olho no olho - sim
Olho não olho - não

Heisenberg e Ela

Avancei um passo em sua direção
Agora resta um
Limbo
Desolador e obscuro

Eu muito inseguro
Mas mais seguro do que nunca
Seguro do meu sentimento

Um quê novo inauguro
Uma vontade com perspectiva
No futuro

Não só crio os castelos
Agora consigo sentir o vento gelado que sopra de suas janelas imensas
Não são de areia
São de um quase
De uma chama que incendeia mas não queima

Ah - minha paixão
Diga a todos que entre nossos olhos
Há um ecossistema complexo
Entre nossas bocas
Uma expectativa
Entre nossos corpos
Nada

Eu não posso mais
Passar ao teu lado
Porque nunca passo do lado
Mas faço questão de estar na tua frente
Porque tenho ciúmes
Tenho inveja
Medo

Heisenberg
me contempla
quanto mais sei que te amo
mais desconheço qualquer certeza

O que será mais hipnótico
John Bonham
Uma tribo africana
Ou será essa maldita bronquite
Essa febre asmática
Essa tosse cor-de-rosa
Que tem nome
Que teu nome

sábado, 21 de junho de 2008

Mentecapto

Cheguei mais perto de você
Por meu desejo sem mesura
Mas me desvelou meu medo
Minha fobia desta altura

Teus olhos só diziam
Um amor que não acredito
A esperança nos mantêm vivos
E o tambor hipnótico de teus lábios só diziam

Eu espero
Já pus isso vezes demais
Eu sinto
Tudo e mais um pouco
Esse pouco escandalizado
É meu futuro
Na tua boca
No teu corpo
Clorofórmio
Sangue
Medula
No teu pulmão
Parece que você é comigo
Como é com todos os seus amigos
Parece as vezes
Com a mulher que eu imagino
Parece sometimes
Como a baby do meu paradise
Com flores no cabelo
Que toca violão e canta
Lá lá lá lá

Mas tem momentos
Que você me trata como um qualquer
E me diz tudo
Genericamente

Eu só quero
E queria
A diferença do tempo
Dos verbos
É que anuncia

O passado morreu

O futuro virá!

Sentido Anti-Horário

Não gosto do espelho
Já devaneio o bastante
A imagem é meu inverso
Quero matá-la

Prefiro me ver na água
Da porcelana da privada
Rodando, rodando, rodando
E indo e voltando limpa

Ritual

Sentado, olhando pro nada
Não há silêncio, mas não ouço nada
Pois quando tudo é música o mundo pára
E um revés de carnaval chega em mim

Autofagia também é canibalismo

Da onde vem este vento gelado?
As janelas estão fechadas a cadeado
O anjo baforento se virou de lado
Mas as serosas de meu peito o descobriram

Antropofagia nos une, mas nos mata

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O estupro que as ondas fazem na areia é hediondo,
Deixa as praias gozadas,
Deixa o mar salgado e a espuma doce,
O sêmen se mistura com o sangue,
E os banhistas ingerem a solução,
Pensando que são banhistas.

Pior é quando pulam sete ondinhas
E jogam flores nos dois corpos nus,
Como se assistissem a e ao crime,
E desdenhando o desabrochamento dos corais.
Rindo-se da violência, da dor, da lágrima, da horrenda coisa.
Pessoas de qualquer idade,
Lambendo o feto indesejado,
O bebê preamar,
Chamam-lhe.
A partir daqui.

A Caverna

O disco apenas toca porque roda
A lua quando beija a terra
Apenas o faz pra se esconder do sol

Tu me afastas porque isso é moda
Como guerra que vem da Espanha
Só por raiva de Portugal

Eu vi na terra uma cratera imensa
Quando um homem distraído
Arrebenta-se no chão e cai
Até hoje se pode ouvir seu grito

Eu vi esse sumidouro/espelho
E caí desesperado em desatino
Quando passa o tempo dilatado
O berro abafado se cala
Pois o eco retardado reverbera
Reverbera

O vento que atrasa a queda
É ele quem te fere a pele
É ele quem te faz surdo e mudo
E te congela de frio maldito
Mas traz um ribombar inaudito
Como o grito de todos os mortos
Que morrem de fome
Antes de tocar o chão

É essa escuridão
Cada vez mais clara
Tão clara que os olhos
Involuntariamente se fecham
Mas as pálpebras queimadas
Derretem o negrume adiado

Nesse posso pestilento
Leito dos moribundos
Eu posarei irremediavelmente
Cantarei cantigas dementes
E ficarei louco
Rodarei como um disco
E a agulha do teu peito me tocará
A lua cheia se esconde de mim
Mas o sol novamente não me alcança

Por que ruas de pedra tu caminhas?

Choro as minhas penas
Choro como um pássaro que cai no posso obscuro
Da saudade
Do futuro
Choro com todas as minhas moléculas
Choro as tristes dores de um idiota

Por que eu vejo nessa tua cara
Toda essa infindável Caverna?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

É pulmão
O peito que eu evoco
Toda vez que rogo
Coração

Conjugação

só somos
separados
eu és
tu sou
tudo errrado

Perspectiva

P
A solidão solitária
É como o silêncio:
Confortável, reflexivo
É como um deserto de gelo:
Maravilhoso e terrível

Ah! A solidão por trás dos olhos...

Mas não passo por isso
Cercam-me de olhares
Favores e palavras
Isso, não quero!

O amor solitário
É como gota no céu
Etérea, morta-viva
É como uma facada
Quente e fria

Ah! O amor comunal...

Mas não passo por isso
Cercam-me de afeto
Abraços e risadas
Isso, não quero!

O amor que desejo
É mais como um beijo
E a minha independência
A minha reflexão
Depende da solidão
Como serei eu mesmo
Se me confundem
Com o projeto de vosso desejo?
Com expectativas alheias de mim?
Com uma liberdade que não existe?

Resta esperar
Porém sinto
Também
O
Peso
Dos
D
I
A
S

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A Deus

a
Eu nunca vi a láctea
Olho pra cima com ressalva
Pois temo ver de novo o cinturão
Depois de anos esquecido
Foges de mim

Como as borboletas
São tão lindas
Quem me dera
Em casa minha
Nem mariposa se presa
E meu peito se entesa

Mas a flecha preparada
Não se desprende
E os ventos não rasga
E a perpétua madrugada
É clara e solitária

Se minha cama falasse...
Nem te conto
Tanta coisa
Que até me escondo
Se meu travesseiro mentisse
Eu saía matando

Quem será o avesso de mim?
Meu oposto dialético
A vida espera
O arco enverga
Mas vai que algo chega e corta
Quem sabe o diabo me carrega
Quem sabe Deus
Quem sabe um anjo me ferra

Sei que o céu cairá
E eu permanecerei sombra na terra
Uma vez que não sei voar
Uma vez que a vida me nega

Sei que a borboleta voará
Pra se congelar num inverno
E a flecha perfurará
O coração o pulso
E a cama m’engulirá
E Deus vai me falar

Havia láctea

Idealista

a
Grandes coisas pairam no ar
E nós ficamos minúsculos

Cor da rosa se torna o céu
E a vida tremeluz
Como um cão bêbado

Mas enfim a luz se apaga
Dentro dos túneis
Que
Infelizmente
Não têm fim

Chocalhamos
Cada dia mais
Inanição de todos os santos
Os revolucionários
Nem existem mais

A asa da pomba é azul
E vermelha
E branca
E as moças morrem ao me ver
Morrem indiferentes
Com o fedor
De minha paixão

Não me leve a mal
Tem coisas belíssimas sobre o amor
Que eu gostaria de falar
Mas eu sou um poeta honesto
Mesmo que
Emparedado

domingo, 15 de junho de 2008

Ah! A sensação

A sensação derretida
Que sobe como anel
Que desaparece como ar


Essa gelatina
Fantasmagórica
De vadiagem
Nuvens torpes


Em contato com a terra
Nem meu corpo
O céu não é fronteira
Ah! A sensação


Essa tosse que me sai de quando em vez
Não passa de um futuro premeditado
Que sempre ignorado
Na juventude inconseqüente
Pois que uma vez apenas


Apenas não há penas


Sobe tudo com o faquir
Esta batida ritmada
Raiz
Pedra
Ar condicionado


Simples alcalóide
Legalizado
Que me sacia
Embriaga levemente


Sentimento que deteriora
Que devora meus brônquios
Que entope meus vasos
Que me faz ânsia
E dependência


Que a mulher que eu for casar
Aceite estes anéis
Pois são eles que eu vou dar

sábado, 14 de junho de 2008

O Carro do Sonho

É o carro
Do sonho que está passando
Seus olhos correndo como pernas que caem no buraco infindo de meu pulmão
É o carro
Aquele ar sofrido que inalamos juntos em perdição
É a poluição

É o carro
Do sonho que está passando
Velozmente
Com ares de inteligente e pose de senhora
Mas tudo de uma natureza intrínseca e perfeitamente equilibrada

É o carro do sonho
Dos maiores sonhos
Dos teus olhos
Tua boca
Meu maior desejo
Nosso amor

É o carro do sonho
Que está passando
Sonho de qualidade
Como nós dois sozinhos nesta vida
Sonhos de nata
De creme
De chocolate

É o carro do sonho que está passando
Uma kombi setenta e seis
É o carro
Do sonho que vai e vem

Você
Nua
Dando voltas
Grudando no meu suor
Cruzando minha perna
Abraçando-se em mim

É o carro do sonho que passara
Dando voltas
Dando voltas
Passará

E você
Nua
Dando voltas pelas ruas
Tomara que me diga
Que o sonho
É seu também
Que nesta terra
Tudo se planta
Tudo dá

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Lacrime Mundae

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Desvelaste a mim
Como uma puta barata
Num lugar distante de tudo
A me espreitares

Não foste nada enfim
Apenas pairavas no escuro
Olhavas-me indiretamente
E não me querias


Mais clara que a noite
Houveste trazido esperança
Agora trouxeste um final
Quebrando-me


Eu esperava que esse dia fosse
A redenção da raça humana
Mas foste apenas a noite comum
Da aniquilação mundana


E nem quiseste velar
A verdade inaudita
Como uma bela música
Que é uma canção maldita


Acabou-se o mágico no mundo
Choram as pedras que queimam
Chora a mandrágora
Chora o dragão


Orion é só uma constelação


Milhões de anos-luz


É só espaço longínquo


Um astronauta que caiu


É hora de também eu


Na dureza


Do real

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Proposta

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Meu pensamento é mais veloz que qualquer palavra

Assim como coração não cabe massa cefálica


Tranque o tanque epidêmico introspectivo:


Risque as coesões como um Monet

Rasgue as conexões como se fosse inevitável

Dali se vê

No sol

A terra

Plúmbea


Resplandece

Mas apenas a realidade


Nada mais real que a ilusão

Nada mais intrusa que as formas

Nada mais que um peixe fora dágua

Ou que um cágado dentro dela


Feche os olhos