segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

No Exílio

Minha terra tem araucárias onde o joão-de-barro faz sua casinha

E o sabiá fica na jabuticabeira e na grama com as rolinhas

E não canta nada

Porque é macho


Minha terra tem bandeiras e tempestades soberbas

Que se vão como chegam

Tremulando se perdem

Qual poeira


Minha terra tem cheiro inconfundível

De terra remexida

Que não sinto faz alguns anos

Assim como o recém-morrido capim


As gramíneas daqui

Não cheiram como lá

O perfume da terra

Virada a machado

E a mão cheia de calos


Minha terra tem enxadas onde lavra o caboclo

E suas mãos machucadas ainda fazem um esforço

Pra bater num pandeiro


Se não tivesse pandeiro

Talvez não tinha enxada também

Mas aí

Minha terra teria palmeiras

Onde canta o sabiá...

Curitiba, dezembro de 2008

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

So-n-et-o

Essa mirada esmerilada
Negra semente d’esmeralda
Esmera dona apaixonada
E eu só um esmolambado
Esmerilhado por diamantes
É que eles são mais duros
E inconstantes

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Dizem Por Aí

Dizem que os livros te levam a viagens sem sair do lugar
Que mentira
Impossível viajar sem se mover
A palavra é uma bóia
Que te carrega
Ora suave em margens plácidas
Ora borrascas violentas

Dizem tanta besteira por aí
Mas não dizem
Nunca
O que é
Realidade

sábado, 15 de novembro de 2008

Se passar no vestibular te dou um carro
Se me der esse exemplo de contrato te dou dez
Mas se me lembrar dessa porta e janela...
pegue o processo
é ação
sim, pegar é um verbo
Se nevar em Curitiba
Mas professor, e aquele mendigo que caiu da escadaria?
Se caísse na neve, imagina o que seria...

terça-feira, 30 de setembro de 2008

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Insight

O desequilíbrio causa movimento
O equilíbrio, a estasia
Como o perfeito é o equilíbrio
Quando a ele se chega
Acaba-se o tempo

Quando o humano sentou na natureza
Amassou algumas folhas
Causando uma gigantesca
Reação em cadeia
Que em última instância
Voltou-se contra ele
E quando ele não compreende
Não aceita

Então
É na imperfeição
Que está o segredo da vida
E na perfeição
O mistério da morte

(pelo que me contaram, nunca morri)
Não sou um poeta de nomes
Sou um poeta de bebes
E comes

Todo Mundo nu

Todo mundo
Já perdeu a memória
Ou você acha que nada
Acontece
Debaixo das cobertas?

Esse vácuo madrugueiro
É mais forte
aaaaaaaaaa que o café
Mais interessante
aaaaaaaaaa que os vícios do negócio jurídico
Mais saboroso
aaaaaaaaaa que o Restaurante Universitário
Mais triste
aaaaaaaaaa que Curitiba
Mais popular
aaaaaaaaaa que o violão
Mais verdadeiro
aaaaaaaaaa que o Jornal Nacional
E por aí vai
É pelo Jornal Nacional que vai
Que tudo vai a putaqueopariu
Que a puta
Que
O pariu
Vai a putaqueopariu

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa E se fosse o contrário?

E se perdêssemos a memória do dia e nossa vida fosse o que chamamos inconsciência?
Nada de matéria
Tudo de etéreo
Tudo de eterno
Nada de terno
Todo mundo nu
Nu
Como o rei do conto folclórico

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O Litoral Me Chama


O litoral me chama
Tudo me lembra cachaça de banana
Mas não adianta fechar os olhos

Aquela menina senhora
Com suas calçadas de pedra envelhecida
Me anseiam como uma virgem lasciva

Na beira do rio
Na terra do boi
Essa gente de contradições
Onde o boi é rei
Onde o boi é prato típico
Bumba meu boi na panela de barro
Bumba zabumba pandeiro violão

Não consigo subir sequer uma escada
Só quero descer
Não quero as noites claras
Só quero o leste

Sob a sombra do grande morro
Eu quero rodar de propósito
Deitar ali na grama
Como se fosse um sonho

Mas não adianta fechar os olhos
Tudo tem gosto de cachaça de banana
O litoral ainda me chama!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sobre Morretes


Morretes,
Tu não morreste.
Durante os séculos não perdeste
A essência viajadora dos
Vagabundos desbravadores .
E teus valores prostibulais
Permaneceram.
Mas nunca mais
Tu vais ser
A porta do jardim do saci

Sobre o Nhundiaquara


O Nhundiaquara me parece uma
Máquina do tempo: o tempo da capela
Eu vejo nas correntes tranqüilas sangue
Mas também barro
Eu vejo pardos e pretos e Oxum triste
Chorando cachoeiras
Eu vejo bandeiras
E todos os carnavais
O Nhundiaquara não desemboca no mar
Sua foz é 1715 no interior rochoso do Marumbi
O Nhundiaquara ta aí

Fogueira

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A Poesia e o Pão

A poesia
A gente precisa dela
Porque senão
O pão
Se torna apenas um par de maõs
Vazias

As pessoas humildes
Com suas mãos no bolso
Elas têm umas às outras
Coisa que as faz
Mais de uma

Que seja dito
A poesia é um mito
Eu apenas rimo
Porque tenho mimo
Embora essa rima seja muito pobre
É muito mais rica que
Um trabalhador que ganha um salário mínimo

Pra quem não tem poesia
O pão é apenas
Duas mão vazia?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Janela Abandonada



Pra onde se vai em busca do nada?
Tudo o que queremos é não

Tem uma janela abandonada
E é apenas ela que foi deixada de lado

Caminhamos silenciosamente em direção a ela
Naquela casa diferente
A qual repito - não está abandonada por inteiro

É triste olhar pro que resta de uma janela
Dava pra ver o mar e o horizonte azul
Quando chovesse devia ser terrivelmente maravilhoso

As paredes depredadas e charmosas
São parte constituinte da liberdade
Vamos pichar o concreto inteiro da cidade - os tribunais, a faculdade, o shopping

Aquela janela abandonada
Não dá pra nada
E é esse nada que eu busco que eu amo que eu desejo

Caminhamos como de mãos dadas
Vocês podem ver
Como o fim une

A finalidade pode ser
Um início de ausência
Nossos pés são guiados até o fatídico quadrado

Nesse portal enlouquecido
Ouve-se um brado - presta atenção

...................silêncio absoluto...................

Sentia-se cada passo
Como um compasso
E a água murmurava segredos pra quem entende

Não vou contar nenhum
Por decoro e sabedoria
Os meus segredos murmurados entre as quadro paredes depredadas
Foram todos revelados
Ou serão
No momento em que da janela poderei ver
Um verde-mar diferente

Dezenova

Minha estrela brilha mais uma vez
Se ao menos conseguisse ver o céu
A fumaça e a luz artificial...

O Sol
Carregou-me em seu colo de ouro
Por mais um ciclo
Sua órbita solitária e etéria se alterou

As coisas não parecem terminar
A névoa desvela o que o olho insiste em acreditar:
Não há limites entre tudo
Como se fossemos uma só existência se movendo

Nessa décima-nona estação aduaneira do universo
Eu me sinto mais uno
Do que verso

Nesses dezoito caminhos
Revi os anos de infância como um homem
Mas nunca fui um homem
Não sou um homem

Nem criança
Nem jovem

Sou o polo norte no inverno

Mas nada tem fim
A findura do que sinto
É o começo do que vem

Sou homem
Também

E se o cosmos conspirar a meu propósito
Serei enfim
A orgânica parte
De algo maior

Serei o agricultor
Serei Pedro Pomar
Serei Bolivar
Serei João ninguém
Serei Vinícius e Tom
Serei Leminski
Serei você
Que me ama e eu não sei
Serei ela
Que eu amo
E
Se o rei do espaço
Tem rainha
E se tem uma princesa africana no Brasil

Eu reivindico minha descendência:
- Sou filho de professor, de operário, de camponês
E por isso sou rei do universo
E você também

Mundo cruel
Mundo injusto
Pro inferno essa vontade de chorar

O infinito não passa de um oito deitado
8 do 8 do 8

Realmente
As coisas não acabam
Por isso esse poema não tem fim

Ao Silêncio

Ao silêncio externo a nós
Oceano
Todos os santos girando
E cantando canções de Orixás

A água doce da queda
Tem uma voz tão suave
Que parece a ausência de som
Tão linda a voz de Oxum

Por quanto tempo conseguimos nos abraçar?
Sem parar nem pra comer
Nem pra respirar
Sem pretensão de fim
Apenas sentindo a quentura dos corpos
Confortáveis

Ah!

É neste silêncio
Que nossos sorrisos mais ternos
Nossos olhares eternos
Serão as vozes mais lindas
De uma cantiga sagrada

Quando estou quieto
É porque quero
Quando quero
Fico quieto
Mas só falando pra quedar a vontade
Por isso cantemos
É mais bonito

Ao silêncio interno a nós
Não menos oceano
Nossos corpos girando
E cantando canções de Orixás

terça-feira, 15 de julho de 2008

Metalinguagem

eu tento falar da minha vida
e se eu tentasse falar com rima?



nem curto essas idéia de
poetinha da mamãe

sou um filinho da mamãe
isso já o bastante

pelo menos no papel
quero mandar tudo à merda
ser um super-homem

falar caralho
merda
buceta

que otário

não dá pra chamar isso aqui de poema

senão podería escrever em ###§§§°º☺☻☺☻

não

faz tempo que privada virou arte
ninguém mais se choca com nada

mas se eu conseguir fazer a folha
virar alguma coisa digital
diminuir de tamanho
interagir!

haha

como se a palavra
não fosse intersubjetividade
mútua

mas o poema tem que ser curto
e tem que falar:

(que rufem os tambores
tum tum tum tttttttutmttmtum)

- vagina

e uma mulher com uma boina
um bongô
uma roupa estranha
começa a dançar e gritar como louca

e o que que eu faço com a porra do soneto alexandrino que eu fiz?

nada
eu nunca fiz coisa assim

poesia de verdade

é repente

por isso eu repinto

piada também é poema

e que coisa

ninguém nunca compra!

Escritório

Estou sentado no meu escritório
Longe de aconchegante
Traz nada de inspiração

Noutro tempo
Noutro escritório
Fazia uma petição
Inicial

Era só mudar os nomes
O juiz
A data
A vara
Pronto
Tava lá se fodendo mais uma empregada

E tudo
Porque me inspirava
No mármore do escritório

Hoje não
Nem água
Nem pão
Mas preservei um pouco meu peito
Do remorso

Estou ao lado de um toca-discos
E tenho alguns vinis antigos
Tenho um violãozinho
E uma janela que dá pra mil vizinhos (nenhum vizinho)

Naquelas eras minimalistas
Saía de noite
E me entristecia
Imensamente

Passava por barraquinhas que vendiam quentão

E o frio que fazia

As tardes de hoje parecem vazias
Mas antes só
Do que mal acompanhado

Aquele escritório
De divocacia

Mais parecia

Uma segunda cadeia
Do oitavo patamar

Mas ali eu era carcereiro
E tratava tudo com falsidade

aaaaaaaaaaaa Não eram pessoas
aaaaaaaaaaaa Eram papéis

aaaaaaaaaaaa Não era exploração
aaaaaaaaaaaa Era processo

aaaaaaaaaaaa Não era chifre em cabeça de cavalo
aaaaaaaaaaaa Era pesquisa de jurisprudência

E agora eu sentado sozinho
aaaaaaaaaaaa Pra variar
Escrevo essas histórias
De pessoas automáticas

Musico poemas cafajestes

Absorvo milhões de musicas
Roubadas da internet

Neste escritório
De desvocacia

É que eu me deparo
Com meu fantasma apagado

Nada vivo
Mas ao menos
Um morto arrependido
Que espera no purgatório
Quem sabe

Quando eu tiver meu próprio
Mas aí não se chamara mais escritório

A Luz Está do Lado de Fora

domingo, 13 de julho de 2008

Último Dia

Eu tenho nojo
Daquele olhar idiota
Daquele cara pentelho

Eu odeio

Segurança na voz
Jeito de homem pra caçar

E eu era uma estátua
Como o Rui Barbosa da Santos Andrade

Um dia eu vi um cara mijando
Alí
No meio da praça

sábado, 12 de julho de 2008

Retalhos Brasileiros

O Boi

As pedras sentem
Os pesos dos pés
E dos tamancos
De madeira
E do fandango
Parnanguara

Mas nas vielas dessa menina

Raramente ouve-se um sino

Ouve-se mais tambores

A perna sacode
Ao som ritmado
Oxum responde
No mar ressacado

Barreado

Barroso

O boi zangado
Agora é palha
Mas desfila vistoso
E morre no fundo do mar

Tudo se resume num trapiche dourado

Que encerra o portal mágico

Que leva ao castelo submarino

Do rei esquecido de Portugal

Onde as fitas esvoaçam
Tem maracatu

Onde dorme o boi fantástico
Tem côco

Onde a nêga dança em febre
Tem maxixe

Onde eu durmo
Não tem não

sábado, 28 de junho de 2008

Arrogantes famigerados
São aqueles
Eu vejo mais por cima
E me sinto lisonjeado

Que mentira

Nada mais triste
Que não viver
Porém eu sei
Que não se pode ser feliz
Querendo tão bem

Beligerantes intocáveis
São estes
Os sinto abaixo
E sou por eles maltratado

Que mentira

Coisa mais linda
O par mais verde
Tenho consciência
Da lisonja puríssima
Quintessência

Terreiro

É na caixa
Que fica batendo
Freneticamente
Em ritmo aéreo
Que induz ao transe absurdo

Tum tum
O chão se entorta
Tum tum
O seio da terra
Tum tum
A voz dos pais
Tum tum

Quando rodo
A tontura dos meus pés
Com tua face esbarrará
O que nego qué
Faz nego chorá

Zum zum
As coisas ampliam
Zum zum
Todas as cores no céu
Zum zum
O silêncio
Zum zum

Naquela vez
Veio de dentro de ti
Um vapor purificado
E tu sopraste nos meus olhos
E fizestes-me cair no chão

Pedra preta diz:
Pandeiro tem que pandeirar
Pedra preta diz:
Viola tem que violar
Pedra preta diz:

Dor tem que
Dorá!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Soneto da Janela Noturna

Ah, meu Deus, que peso atlântico!
E eu sigo a fitar estrelas,
Mesmo sabendo que apenas
São reveses num tom flâmeo.

Reveses das lamparinas
Da rua. Meu arcabouço
Quebrado grita, menina:
Minha pleura, meu calabouço.

Mover-me, é lancinante
Dor. Assim, resto sozinho.
Nos ombros, o mundo – tu

Proferir-te emocionante
Oi, ver o lácteo caminho.
Amor, vai tomar no cu!

Ninguém Sabe

Ninguém sabe
Ninguém entende
Quando nada mais cabe
Nada mais se sente

Sou como um pássaro
Uma pomba
Pareço legal
Mas meus piolhos te matam

Sou como uma cama
De mármore
Ninguém se deita
É gelada e dura

Sou como esse poema
Inútil
Feio

Sou como um mato sem cachorro
Eu sou o mato
Você é uma cadela
Eu te odeio

Chega de dizer – eu quero
Faz anos que repito
E por isso sou como o papagaio

Mas chega de dizer – sou como
Eu não sou nada não
Estou sendo agora
Um bobão
Que se sente muito mal

Mas ninguém sabe
Ninguém entende
Quando a esperança acaba
O amor se estende

semente

Eu como todas as sementes
Não dá mais
É uma angústia
Sem fim
Sem cerejas

Estou à beira de uma catástrofe
E somente tu podes me matar
Porque desacredito todas as profecias
E tu me dizes que desistes

Eu como todas as sementes
E dentro da minha cavidade abdominal
Nasce uma árvore medonha
Que dilacera meu corpo
Que rouba minha alma
Pra crescer e se tornar um tronco podre e negro

Não vivo
Nem sou feliz
Portanto nem existo
Apenas choro
Amei tanto

E não desaprendi a escorrer pelas ruas sozinho

Eu só me infernizo
E tua fantasia
Me faz encolher cada dia mais

Meu peito dói muito
E minha desesperança me comove
Me move para o buraco sem fim
Meu passado
Não quero revivê-lo
Quero esquecer
Meu presente maldito
Minha estrada malfadada

E tu me fazes um desgraçado
Um idiota
Que não acredita em nada
Tudo perde a graça
Eu te quero
Eu te amo
Mas não é só dúvida
É também
Um vômito que leva junto
Todo meu corpo pra privada imunda
Do inferno

Dói
Mas uma dor que não acontece
Não aconteceu

Por favor
Deus
Anjos
Ciência
Qualquer coisa
Eu preciso
Ou morrer
Ou cantar

Eu só choro e me espanto
Te espanto
E meu pranto
Só te faz ter pena
E ir pra casa sozinha
Sem nem sequer dizer adeus
Enquanto eu me jogo de todas as janelas
Ainda me dizem que meu caminho me leva pra ti
E a coisa que eu mais queria era acreditar
Mas não dá
Eu não consigo
Eu só me finjo de vivo
Pra não me enterrarem de uma vez
Eu só não quero ser enterrado
Porque
Não sei

domingo, 22 de junho de 2008

Quero ver teu olho em mim
Quero verter olho sim
Quero ver ter olho assim
Só sei que teu olho quer a mim
Como mim quer ter olho em ti
Olho tim com mi ter são
Olho no olho - sim
Olho não olho - não

Heisenberg e Ela

Avancei um passo em sua direção
Agora resta um
Limbo
Desolador e obscuro

Eu muito inseguro
Mas mais seguro do que nunca
Seguro do meu sentimento

Um quê novo inauguro
Uma vontade com perspectiva
No futuro

Não só crio os castelos
Agora consigo sentir o vento gelado que sopra de suas janelas imensas
Não são de areia
São de um quase
De uma chama que incendeia mas não queima

Ah - minha paixão
Diga a todos que entre nossos olhos
Há um ecossistema complexo
Entre nossas bocas
Uma expectativa
Entre nossos corpos
Nada

Eu não posso mais
Passar ao teu lado
Porque nunca passo do lado
Mas faço questão de estar na tua frente
Porque tenho ciúmes
Tenho inveja
Medo

Heisenberg
me contempla
quanto mais sei que te amo
mais desconheço qualquer certeza

O que será mais hipnótico
John Bonham
Uma tribo africana
Ou será essa maldita bronquite
Essa febre asmática
Essa tosse cor-de-rosa
Que tem nome
Que teu nome

sábado, 21 de junho de 2008

Mentecapto

Cheguei mais perto de você
Por meu desejo sem mesura
Mas me desvelou meu medo
Minha fobia desta altura

Teus olhos só diziam
Um amor que não acredito
A esperança nos mantêm vivos
E o tambor hipnótico de teus lábios só diziam

Eu espero
Já pus isso vezes demais
Eu sinto
Tudo e mais um pouco
Esse pouco escandalizado
É meu futuro
Na tua boca
No teu corpo
Clorofórmio
Sangue
Medula
No teu pulmão
Parece que você é comigo
Como é com todos os seus amigos
Parece as vezes
Com a mulher que eu imagino
Parece sometimes
Como a baby do meu paradise
Com flores no cabelo
Que toca violão e canta
Lá lá lá lá

Mas tem momentos
Que você me trata como um qualquer
E me diz tudo
Genericamente

Eu só quero
E queria
A diferença do tempo
Dos verbos
É que anuncia

O passado morreu

O futuro virá!

Sentido Anti-Horário

Não gosto do espelho
Já devaneio o bastante
A imagem é meu inverso
Quero matá-la

Prefiro me ver na água
Da porcelana da privada
Rodando, rodando, rodando
E indo e voltando limpa

Ritual

Sentado, olhando pro nada
Não há silêncio, mas não ouço nada
Pois quando tudo é música o mundo pára
E um revés de carnaval chega em mim

Autofagia também é canibalismo

Da onde vem este vento gelado?
As janelas estão fechadas a cadeado
O anjo baforento se virou de lado
Mas as serosas de meu peito o descobriram

Antropofagia nos une, mas nos mata

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O estupro que as ondas fazem na areia é hediondo,
Deixa as praias gozadas,
Deixa o mar salgado e a espuma doce,
O sêmen se mistura com o sangue,
E os banhistas ingerem a solução,
Pensando que são banhistas.

Pior é quando pulam sete ondinhas
E jogam flores nos dois corpos nus,
Como se assistissem a e ao crime,
E desdenhando o desabrochamento dos corais.
Rindo-se da violência, da dor, da lágrima, da horrenda coisa.
Pessoas de qualquer idade,
Lambendo o feto indesejado,
O bebê preamar,
Chamam-lhe.
A partir daqui.

A Caverna

O disco apenas toca porque roda
A lua quando beija a terra
Apenas o faz pra se esconder do sol

Tu me afastas porque isso é moda
Como guerra que vem da Espanha
Só por raiva de Portugal

Eu vi na terra uma cratera imensa
Quando um homem distraído
Arrebenta-se no chão e cai
Até hoje se pode ouvir seu grito

Eu vi esse sumidouro/espelho
E caí desesperado em desatino
Quando passa o tempo dilatado
O berro abafado se cala
Pois o eco retardado reverbera
Reverbera

O vento que atrasa a queda
É ele quem te fere a pele
É ele quem te faz surdo e mudo
E te congela de frio maldito
Mas traz um ribombar inaudito
Como o grito de todos os mortos
Que morrem de fome
Antes de tocar o chão

É essa escuridão
Cada vez mais clara
Tão clara que os olhos
Involuntariamente se fecham
Mas as pálpebras queimadas
Derretem o negrume adiado

Nesse posso pestilento
Leito dos moribundos
Eu posarei irremediavelmente
Cantarei cantigas dementes
E ficarei louco
Rodarei como um disco
E a agulha do teu peito me tocará
A lua cheia se esconde de mim
Mas o sol novamente não me alcança

Por que ruas de pedra tu caminhas?

Choro as minhas penas
Choro como um pássaro que cai no posso obscuro
Da saudade
Do futuro
Choro com todas as minhas moléculas
Choro as tristes dores de um idiota

Por que eu vejo nessa tua cara
Toda essa infindável Caverna?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

É pulmão
O peito que eu evoco
Toda vez que rogo
Coração

Conjugação

só somos
separados
eu és
tu sou
tudo errrado

Perspectiva

P
A solidão solitária
É como o silêncio:
Confortável, reflexivo
É como um deserto de gelo:
Maravilhoso e terrível

Ah! A solidão por trás dos olhos...

Mas não passo por isso
Cercam-me de olhares
Favores e palavras
Isso, não quero!

O amor solitário
É como gota no céu
Etérea, morta-viva
É como uma facada
Quente e fria

Ah! O amor comunal...

Mas não passo por isso
Cercam-me de afeto
Abraços e risadas
Isso, não quero!

O amor que desejo
É mais como um beijo
E a minha independência
A minha reflexão
Depende da solidão
Como serei eu mesmo
Se me confundem
Com o projeto de vosso desejo?
Com expectativas alheias de mim?
Com uma liberdade que não existe?

Resta esperar
Porém sinto
Também
O
Peso
Dos
D
I
A
S

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A Deus

a
Eu nunca vi a láctea
Olho pra cima com ressalva
Pois temo ver de novo o cinturão
Depois de anos esquecido
Foges de mim

Como as borboletas
São tão lindas
Quem me dera
Em casa minha
Nem mariposa se presa
E meu peito se entesa

Mas a flecha preparada
Não se desprende
E os ventos não rasga
E a perpétua madrugada
É clara e solitária

Se minha cama falasse...
Nem te conto
Tanta coisa
Que até me escondo
Se meu travesseiro mentisse
Eu saía matando

Quem será o avesso de mim?
Meu oposto dialético
A vida espera
O arco enverga
Mas vai que algo chega e corta
Quem sabe o diabo me carrega
Quem sabe Deus
Quem sabe um anjo me ferra

Sei que o céu cairá
E eu permanecerei sombra na terra
Uma vez que não sei voar
Uma vez que a vida me nega

Sei que a borboleta voará
Pra se congelar num inverno
E a flecha perfurará
O coração o pulso
E a cama m’engulirá
E Deus vai me falar

Havia láctea

Idealista

a
Grandes coisas pairam no ar
E nós ficamos minúsculos

Cor da rosa se torna o céu
E a vida tremeluz
Como um cão bêbado

Mas enfim a luz se apaga
Dentro dos túneis
Que
Infelizmente
Não têm fim

Chocalhamos
Cada dia mais
Inanição de todos os santos
Os revolucionários
Nem existem mais

A asa da pomba é azul
E vermelha
E branca
E as moças morrem ao me ver
Morrem indiferentes
Com o fedor
De minha paixão

Não me leve a mal
Tem coisas belíssimas sobre o amor
Que eu gostaria de falar
Mas eu sou um poeta honesto
Mesmo que
Emparedado

domingo, 15 de junho de 2008

Ah! A sensação

A sensação derretida
Que sobe como anel
Que desaparece como ar


Essa gelatina
Fantasmagórica
De vadiagem
Nuvens torpes


Em contato com a terra
Nem meu corpo
O céu não é fronteira
Ah! A sensação


Essa tosse que me sai de quando em vez
Não passa de um futuro premeditado
Que sempre ignorado
Na juventude inconseqüente
Pois que uma vez apenas


Apenas não há penas


Sobe tudo com o faquir
Esta batida ritmada
Raiz
Pedra
Ar condicionado


Simples alcalóide
Legalizado
Que me sacia
Embriaga levemente


Sentimento que deteriora
Que devora meus brônquios
Que entope meus vasos
Que me faz ânsia
E dependência


Que a mulher que eu for casar
Aceite estes anéis
Pois são eles que eu vou dar

sábado, 14 de junho de 2008

O Carro do Sonho

É o carro
Do sonho que está passando
Seus olhos correndo como pernas que caem no buraco infindo de meu pulmão
É o carro
Aquele ar sofrido que inalamos juntos em perdição
É a poluição

É o carro
Do sonho que está passando
Velozmente
Com ares de inteligente e pose de senhora
Mas tudo de uma natureza intrínseca e perfeitamente equilibrada

É o carro do sonho
Dos maiores sonhos
Dos teus olhos
Tua boca
Meu maior desejo
Nosso amor

É o carro do sonho
Que está passando
Sonho de qualidade
Como nós dois sozinhos nesta vida
Sonhos de nata
De creme
De chocolate

É o carro do sonho que está passando
Uma kombi setenta e seis
É o carro
Do sonho que vai e vem

Você
Nua
Dando voltas
Grudando no meu suor
Cruzando minha perna
Abraçando-se em mim

É o carro do sonho que passara
Dando voltas
Dando voltas
Passará

E você
Nua
Dando voltas pelas ruas
Tomara que me diga
Que o sonho
É seu também
Que nesta terra
Tudo se planta
Tudo dá

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Lacrime Mundae

'
Desvelaste a mim
Como uma puta barata
Num lugar distante de tudo
A me espreitares

Não foste nada enfim
Apenas pairavas no escuro
Olhavas-me indiretamente
E não me querias


Mais clara que a noite
Houveste trazido esperança
Agora trouxeste um final
Quebrando-me


Eu esperava que esse dia fosse
A redenção da raça humana
Mas foste apenas a noite comum
Da aniquilação mundana


E nem quiseste velar
A verdade inaudita
Como uma bela música
Que é uma canção maldita


Acabou-se o mágico no mundo
Choram as pedras que queimam
Chora a mandrágora
Chora o dragão


Orion é só uma constelação


Milhões de anos-luz


É só espaço longínquo


Um astronauta que caiu


É hora de também eu


Na dureza


Do real

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Proposta

s


Meu pensamento é mais veloz que qualquer palavra

Assim como coração não cabe massa cefálica


Tranque o tanque epidêmico introspectivo:


Risque as coesões como um Monet

Rasgue as conexões como se fosse inevitável

Dali se vê

No sol

A terra

Plúmbea


Resplandece

Mas apenas a realidade


Nada mais real que a ilusão

Nada mais intrusa que as formas

Nada mais que um peixe fora dágua

Ou que um cágado dentro dela


Feche os olhos