terça-feira, 10 de julho de 2018

Americano, não!

Não reivindico
O nome de americano
Que se foda esse italiano
do Américo Vespúcio
Cortarei mil prepúcios
Como Davi
Vingarei os meus parentes
Eu, tupi
beberei caium até cair
pra comer carne de gente


Meu lugar é meu terreiro
No estômago do inimigo
Meus antepassados bravos
Eu trago sempre comigo


Meu lugar é meu Brasil
Onde o escravo fugiu
Onde o índio lutou
Onde o pobre penou
Nas mãos de um estrangeiro


Não reivindico
O nome de americano
Nasci bravo guerreiro
Mamando de sangue humano
Tremam invasores do mal!
Minha terra tem palmeiras
Tem moquém e tem caveiras
De vossos parentes mortos

Por nossa luta fatal

sábado, 5 de novembro de 2016

Justiça

Esta é a justiça 
numa estátua de Erbo Stenzel:
Sedutora e Oblíqua,
promete e não entrega.
Prostrada, controla.
De lado, procura.
Conhece o furor do estupro.
Enfrenta, protege,
a si ante outros sedentos.
Escrava dos homens brutos.
Exprime o trauma de dentro
nos olhos que tudo atracam,
na tranca de seus redutos,
nos seios estuporados,
na prontidão sem pecados,
na projeção sem futuro.
Esta é a justiça
numa estátua paranaense.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Fraqueza

Sinceridade não é sinal de fraqueza

Fechar-se em si mesma
Não pensar pra não mentir
Mentir pra depois pensar
É pura debilidade

Reconcilia-se com a verdade

Eu não me escondo
Mas o mundo não perdoa
Ser o espelho do outro
O mundo não aceita
A ausência do jogo

O segredo azeita
O uso do gozo

domingo, 21 de agosto de 2016

Angústia

É mais difícil amar ou ser amado?
Amar é escolher ou é deixar?
      Quem ousa, usa
Amor é luxo ou necessidade?
Vício ou placebo?

É por medo, não por vergonha,
     que não choro
Olho pra cima e vejo uma estrela entre a fresta da cortina
     no centro da cidade armada
Penso no impeachment, na polícia
enquanto uma mulher com câncer assiste um jogo de vôlei
É duro ser suave
     Mas mais leve
     se sólido fosse

É a fé que faz parte do amor?
Ou o amor que compõe a fé?
Amar é desistir?
     Ou acreditar?
Quem usa,
     ousa.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Respeito o Mar


Respeito o mar
Como um branco a polícia
Uma mulher o ginecologista
Ou o agricultor respeita o INSS
Como um astronauta

Ouço seu barulho inicial de cascata semovente
E seu finalmente
Crepitar de espuma
Óleo fervente que frita
Morrendo na areia da praia

Respeito

Olho pro pedacinho de maré
Que oscila
Ora o alcança a água
Ora lhe foge

Quantos copos de líquido ali não cabem
Quantos palmas em concha
Quantas tigelas
E baldes, mil baldes
E mais
Muito mais
Quantas cisternas
Caminhões-pipa
E toda a água infinda desse abismo salobre

Se cada litro de água
Que diviso nesse ponto pequeno
Fosse um grão de areia
Faltariam praias
Faltaria areia

O cão se joga no oceano e nada tranquilo
Nossa prima, a baleia, não vive fora do ambiente aquático
E quantas Joanas não choraram por seus filhos
Tragados ainda crianças por Netuno ou Iemanjá?

Respeito
Como um paraquedista
Como um bandido sua vítima
Respeito o mar

terça-feira, 30 de junho de 2015

Café da Tarde

Quando bebo café
Não constrinjo os lábios
Beijo a xícara
Em homenagem a essa droga ancestral
Fumo um cigarro
Como se mamasse um seio
Do mesmo jeito que a seiva
Suga da terra os nutrientes
E se
Condoído em um leito
Engulo pílulas e comprimidos
Devoro-os
Tal postos
De uma caça sagrada

O amor
A família
E a medicina
Não passam de humanas criações
A desilusão
O rompimento
A morte
Seus inescapáveis resultados

Como o animal que mata
A flor que brota
E o trovão que relampeja
Eu sou gente
E gente sou
Porque bebo
Porque Fumo
E me entorpeço
E chapo

Aprecio
O aroma do café torrado
E o cheiro nauseante do tabaco

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Agir no não

Nada faço eu agora, só sentir.
Fácil ficar parado e só olhando.
Acho que quando levo minha boca,
Minhas mãos, a voz rouca – não agi

Nem preto nem o branco, nem escuro
Nem o claro, nem o muro, nem oito
Nem oitenta. Na vida não existe
Câmera lenta ou passo atrás, eu vi.

Mas, eu piso de novo o mesmo ovo.
Eu temo, eu gosto, eu choro, eu danço, sim!
Como eu danço! E minha alma enche.

E novamente, de repente, eu – bobo –
Me lanço à tempestade; para em mim
Cair - um risco! - o raio dos prazeres.