domingo, 21 de agosto de 2016

Angústia

É mais difícil amar ou ser amado?
Amar é escolher ou é deixar?
      Quem ousa, usa
Amor é luxo ou necessidade?
Vício ou placebo?

É por medo, não por vergonha,
     que não choro
Olho pra cima e vejo uma estrela entre a fresta da cortina
     no centro da cidade armada
Penso no impeachment, na polícia
enquanto uma mulher com câncer assiste um jogo de vôlei
É duro ser suave
     Mas mais leve
     se sólido fosse

É a fé que faz parte do amor?
Ou o amor que compõe a fé?
Amar é desistir?
     Ou acreditar?
Quem usa,
     ousa.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Respeito o Mar


Respeito o mar
Como um branco a polícia
Uma mulher o ginecologista
Ou o agricultor respeita o INSS
Como um astronauta

Ouço seu barulho inicial de cascata semovente
E seu finalmente
Crepitar de espuma
Óleo fervente que frita
Morrendo na areia da praia

Respeito

Olho pro pedacinho de maré
Que oscila
Ora o alcança a água
Ora lhe foge

Quantos copos de líquido ali não cabem
Quantos palmas em concha
Quantas tigelas
E baldes, mil baldes
E mais
Muito mais
Quantas cisternas
Caminhões-pipa
E toda a água infinda desse abismo salobre

Se cada litro de água
Que diviso nesse ponto pequeno
Fosse um grão de areia
Faltariam praias
Faltaria areia

O cão se joga no oceano e nada tranquilo
Nossa prima, a baleia, não vive fora do ambiente aquático
E quantas Joanas não choraram por seus filhos
Tragados ainda crianças por Netuno ou Iemanjá?

Respeito
Como um paraquedista
Como um bandido sua vítima
Respeito o mar

terça-feira, 30 de junho de 2015

Café da Tarde

Quando bebo café
Não constrinjo os lábios
Beijo a xícara
Em homenagem a essa droga ancestral
Fumo um cigarro
Como se mamasse um seio
Do mesmo jeito que a seiva
Suga da terra os nutrientes
E se
Condoído em um leito
Engulo pílulas e comprimidos
Devoro-os
Tal postos
De uma caça sagrada

O amor
A família
E a medicina
Não passam de humanas criações
A desilusão
O rompimento
A morte
Seus inescapáveis resultados

Como o animal que mata
A flor que brota
E o trovão que relampeja
Eu sou gente
E gente sou
Porque bebo
Porque Fumo
E me entorpeço
E chapo

Aprecio
O aroma do café torrado
E o cheiro nauseante do tabaco

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Agir no não

Nada faço eu agora, só sentir.
Fácil ficar parado e só olhando.
Acho que quando levo minha boca,
Minhas mãos, a voz rouca – não agi

Nem preto nem o branco, nem escuro
Nem o claro, nem o muro, nem oito
Nem oitenta. Na vida não existe
Câmera lenta ou passo atrás, eu vi.

Mas, eu piso de novo o mesmo ovo.
Eu temo, eu gosto, eu choro, eu danço, sim!
Como eu danço! E minha alma enche.

E novamente, de repente, eu – bobo –
Me lanço à tempestade; para em mim
Cair - um risco! - o raio dos prazeres.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Gravidade Zero

A massa atrai a massa
A matéria cai sobra a matéria
O universo pesa
Suas botas
Esmagando a nossa testa

Nosso amor foi fácil
Como cair

O universo nos pesa os ombros
     Mas quando se cai
A gravidade é zero
Tudo contigo despenca
E nada é certo

Olha pra cima, amor, e contempla

As estrelas não estão pra iluminar o paço

Estão pra dar beleza ao nosso espaço

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Como pode?

Como podem
Falar de fumaça
Quando meu peito
Carece de ar
Como pode o vento apagar
Varrer a areia
Levar as flores
Como podem fumar
Seus charutos
Quando mal aspiro
Este ar rarefeito

Fundo
Bem fundo
Sob a campa d’imbuia
Nos brônquios
Arfo fundo
Como um chorão
Que dorme alheio à luz

Como pode a luz
Anunciar o Sol
Quando a noite
É eterna
No lavabo subterrâneo
Como podem cofiar
Seus volumosos buços
Levantar seus braços
Enquanto outros
Carregam no esquife
Uma senhora
Tão menina

Como tão fundo
Aquele metro e meio
O ar tão rarefeito
Pesada a cabeça

O poder de dispor
De transportar para a ponta dos dedos
Todo o peso do corpo
O poder de cair
Uma ultima vez

Como pode uma senhora
Ser tão menina?

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Bebedouro



No poço dos tropeiros
Onde os cavalos lavavam dos focinhos
O sangue negro dos índios
Ainda deita
Certa transitoriedade

Em cada pedra de calço
Daquela parte da cidade
Existe uma gota salgada
Que argamassa o pavimento
Em cada bloco
Um chicote
Uma palavra
Uma oração
Um sofrimento

Ladainham o pai nosso
Dez ave marias
Depois de pelar a pele
De um bem que então fugia

No poço dos tropeiros
As pedras ainda se pisam
E se divisam no alumínio
Esfumaçando à rachaduras

Ainda deita
No poço
Um quê de passagem

As pombas diuturnas que infectam sua água
De noite bicam as migalhas
Dos ecos da madrugada

Mas na mocidade da noite
Mulher incorpora o espírito bandeirante
E no meio dos bares
Em cima do tanque

Raspa seus próprios pelos
Como se arranhasse as pernas de sangue

Pura verdade
As putas ainda tem a mesma vaidade