domingo, 24 de agosto de 2014

Aos mortos
A morte nada muda na vida
Que fica presa na pedra como estátua
Roída pelas interpéries sociais
Flutuando
Nem no passado
Nem no presente
Nem - nunca - em nenhum amanhã

Contudo
A morte muda a vida dos vivos
Porque a morte só é morte
de foice e capote
Para os outros
        Que não morreram ainda

Toda morte que existe
É a morte de alguém que não eu

É por isso que há nada mais vívido
Do que o velório
Do seu namorado
Ou mais querido amigo
Ou do seu marido
Ou do colega de trabalho desconhecido


O fim de uma coisa
É só o começo
       De seu contrário
Que
       Se movendo
Se torna operário
Girando a engrenagem do mundo

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Eterno Objeto

O mundo dividido
Entre poetas e cientistas
Não se resolve quanto ao eterno objeto
Do amor

Que chato
De novo este tema
Quantas monografias
E teses
E esquemas
Que desde a antiga idade
Com batidos teoremas
Não disputam
A consciência popular

Os poetas insistem em negar
A racionalidade do fenômeno
"Impossível
Só o sentir é que serve
Do impulsivo termômetro"

Mas as mais novas das novíssimas novidades
Descoberta catalogada
Pelos cientistas do MIT
Como eu vi
No National Geographic Chanel
Comprovam
Por A mais B
Que nada mais exato
Do que este profundo
Curioso fato:

As ondas cerebrais causadas pelo estímulo hormonal
Decorrem por sua vez
Da tez que se toca no tato
A saliva se homogeiniza
O odor naturalizado
Até que se suaviza normalizando o estímulo visual

Trocando em miúdos
A Super-interessante traduz
Ao natural
Em fórmula sensacionalista
O que o especialista conduz
Em décadas de pesquisa:

O tédio uma hora vem pra cima
Assim como é chata
(e mal feita)
essa pobre rima

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Naqueles dias

Naquele dia
Em que tudo acabou
Eu fui roubado
Levaram meus documentos
Levaram minhas notas de real
Tatearam meu bolsos
Seguraram meus braços
Impediram meu grito


Naqueles dias
O tempo não seguia os tapas dos ponteiros
Como se uma neblina fantástica formasse uma cúpula
Que igualava a todos
Pelo seu ar rarefeito e pesado
A gravidade era mais forte
E o cheiro das flores ácido e úmido
Naqueles dias


Naqueles dias
A natureza assaltou a história
Assaltou a fisicalidade da voz e do gesto
Do mesmo modo como assaltou-me a dupla de viciados


Naqueles dias
Sem ouvido pra ouvir nem voz pra falar


Que bom!
Não havia nada pra comunicar
Não havia mais RG pra me identificar
Porque a identidade acabou
No gás nebuloso da noite


Insuportável narcisismo
O reflexo da própria face
Nebulado pelo breu dos lamentos


Dormimos ali mesmo
Naqueles dias
No chão da capela fria
Partilhamos mais do que só uma memória


Mas a memória
Ele nos disse
É a pele que solta
De uma queimadura de sol
E
Naquele dia
O pôr-do-sol foi lindo

domingo, 8 de junho de 2014

O Medo da Noite

Ah, luz do Sol

Traga-me alívio
Que eu já não consigo
Mais com essa sombra

Vem pelas frestas 
Da minha parede
Com passos de raios

No meio-dia 
Descanses pra sempre 
Sem pressa de pôr-se

Prefiro até a dor da queimadura
Do que essa brancura 
que é tão doentia

Prefiro até a cegueira na vista
Do que essa imprevista 
Torpeza do escuro

Prefiro até as olheiras sem sono 
Do que esse abandono 
Escondido na treva

Ah, luz do sol

Meu arrebol 
A reboque do medo 
Que eu guardo em segredo - o medo da noite

Ah, meu farol
O meu anzol 
Azorrague dos sevos 
Que imolam os servos - que servem a vida


domingo, 26 de janeiro de 2014

Orfanato

Oh, pai que se desgarra do filho
que sai antes mesmo de abotoar as calças
que vai comprar cigarros
que, ao invés de serem fumados, o fumam

As mães nunca se desprendem dos filhos
que lhe pendem das tetas
mordendo-lhes os bicos dos seios cheios de estrias
mães que saíram da Bahia pra nunca mais voltar

Oh, filhos do esperma espremido
bandidos aos herdeiros de nome
banidos das carteiras de identidades
balidos acadêmicos das psicólogas do educandário

Mas o pai que se desgarra do filho
deixa pra trás mais que a sombra ausente vazia
Com uma das mãos agarra o destino
e com a outra nega o auxílio
provocando a tentação
Diabo!
quem deixa à morte seu filho é sagrado
que ao tinhoso previne ou entrega

Deus não é louvado porque largou seu rebento à merda?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Ser Só

Ser só é um caminhar alienado
Dos passos que pisaram camaradas,
Das grades que prenderam condenados;
Das marcas que deixaram as granadas.

Tudo que aqui se faz aqui se sente,
Tudo no mundo, terra de ninguém,
Pra onde tudo vai, donde tudo vem,
É dirigido pela ação da gente.

Sozinhos somos um de cada vez.
Um grito tímido que nunca sai
Do plano das ideias, da vontade.

Sozinhos, só dizemos sim às leis,
À igreja, à pátria e a nossos pais.
É hora de juntarmos as metades!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Caçada

A seta do cupido
            Acerta em cheio minha libido aceta
     A meta do cuspido traço
É o vaso dessa dor que veta
O meu mote em reta linha
É que meu peito azeda todo amor que é flecha

O arco que se entesa
      Quebra
Eis a morte do Eros vil intento
      Meros ventos
            Desguiaram
O que visava o arco atento

Nego o choro patético dos pares
      Que se explodam as flores
            Que se afoguem nos mares
Essas drogas de amores

Mas
      Audaz
A mira das deidades nunca é falha
      Como a folha
             Precisa
      Só cai depois de seca
Após o reto tiro
      Fincado em minha alma
             O alvo-de-mim se atira
Na armadilha como a tola caça