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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


Vergonha

O coruja abria o olhão no canto escuro
Via tudo de soslaio
Se era hora
Vazava como um raio
Escorria pela Riachuelo
Desguiava a São Francisco
Cruz Machado

Conhecia por nome
Todas as mulheres e homens
Frequentadores das boites
Shows executivos
E as travestis que os machões fingem asco
Ele as tratava a trato fino
No respeito
Da fama das giletadas

Antártica era nove pila
A dose de Ypioca cara
As dançarinas ele observava
E bebia não muito
Cheirava
Vinte e cinco anos
Três de fim de noite
Raspa de tacho
Gato Preto
Olho vermelho

Nos botecos do centro velho
Você esquece que um dia o sol nasce

De cidadezinha
Interior paranaense
Aprendeu a ser homem na casinha
Aprendeu a beber de logo cedo
Família de doutor
Branquinho playboy
Esquece a sua classe
Num risco de pó

***

Código Civil
Domina suas partes
Geral, Família
Reais e Sucessões
Sabe seus caminhos
Controla sua arte

Seus professores
Seus coleguinhas
Mãos manicuradas
Cabelos de chapinha

Depois da Magna aula falsa
Golpes de café
Ar condicionado
No edifício do TJ
Atinge sua cota
Nota seus chefes
BMW no estacionamento
Decidem pelos outros
Pelo que não devem
Soltam, prendem
Sentenciam, matam
-- A vida não é fácil pra juiz.
Se fosse fácil era difícil
É muito mais fácil que isso

***

Não vê a hora de bater seu ponto
Acaba-se a jornada
O mundo vira de cabeça pra baixo
O céu escuro vira chão
O mar vira sertão
E as cortinas de veludo verde
Escondem outro mundo mais vivo
Roberto Carlos na jukebox
Rolmops
Sinuca

Damas da vida
Bebida
Fumo

Sabe que vai ser roubado
Mas deseja que lhe toquem
A carteira
O bolso
O fundilho
Nada vem de graça
Essa vida sem futuro
Essa vida de fudido
Depois formado: vai ser advogado
Porta-de-cadeia defendendo bandido

-- Minha desgraça é um conto épico.

O dinheiro não vale a mesma coisa
No ambiente do subproletário
Pra que otário quer dinheiro mesmo?
À noite os gatos todos viram pardos
A dignidade vale mais na boite
Há mais honra e não há hipocrisia
Pra que juiz precisa de salário?
Pra que?

Mas ninguém imagina
Ninguém do seu trabalho
Da aula, da sua rotina

Que ele é um vagabundo covarde
Que nega sua origem de classe
Que finge não ser de classe média
Mas é
Negado pelos seus pares doutores
Sente-se aceito por seus feitores noturnos

Que ser cifrão de malandro
É melhor do que a amizade rasa
Dos merdunchos da pequena burguesia

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Romance (canção)

Qual foi minha surpresa ao descobrir
Que teus lábios nos meus lábios
Faz meu olho sorrir
Teu perfume proibido
Tua libido
Meu prazer

Nossos dias
Nossas noites de ousadia
Nos meus dedos sinto arder

E trago junto do meu peito
Mil segredos que evaporam
São meus poros que se abrem
E a fome que devoram

Enquanto a terra gira eu corro dos homens
E chego até a lua com medo de cair
O meu amor de olhos cor de grama
Tua saborosa fantasia não me engana

No travesseiro deito minha cabeça pesada
Sabendo que eu irei dormir com minha amada
Companheira tua brasa e teu pijama chinês
Tão rápido acaba a minha vez

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Peregrino Apaixonado 13 - Passionate Pilgrim 13

Retradução do Passionate Pilgrim 13 de Shakespeare

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13

Beauty is but a vain and doubtful good,
A shining gloss that vadeth suddenly,
A flower that dies when first it ’gins to bud,
A brittle glass that’s broken presently;
__A doubtful good, a gloss, a glass, a flower;
__Lost, vaded, broken, dead within an hour.

And as goods lost are seld or never found,
As vaded gloss no rubbing will refresh,
As flowers dead lie withered on the ground,
As broken glass no cement can redress:
__So beauty blemished once, for ever lost,
__In spite of physic, painting, pain and cost.

13 

A beleza é, senão, vã dúbia cota,
Um lustro que se esvai assim com pressa,
Uma flor que cai morta assim que brota,
Uma vidraça que quebra assim depressa.
__Bem duvidoso, um brilho, um vidro, a flora;
__Ofusco, perda, caco, morto numa hora.

E qual coisa perdida nunca achada,
Qual brilho opaco nem polir dá cura,
Qual flor que cai sem vida ao chão murchada,
Qual cacos que cimento algum segura:
__Tal, manchada a beleza, errada sina.
__Embora arte, dor, custo e medicina


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Voo da Borboleta

Dizem que do bater
De asas de uma borboleta
Uma borrasca resulta
No outro lado do planeta
         Besteira
Este inseto de vida curta
É retrato reto
         Do romance
         E da sacanagem mais espúria

Raras voltas
Em primaveras únicas
Pousa leve
          Pluma
Em minha palma trêmula
A borboleta multicolorida

Na beleza daquele átimo
Mônada de destreza instável
No ápice do desfrutar
          Medo
Não voe embora
Não me deixe só a memória
De um instante que nem mais sei
Eis que fecho os dedos em pânico
          Gaiola egoísta sem culpa
          Meu desejo não conhece consciência
                    Seja lagarta seja pupa
Esperança chã
          A mariposa escapa
Como tantos amores
          E vai pulando
Entre as flores
          Na flora
Em sua breve existência
          De quarenta e oito horas

Só penso em suas cores
Miolo de larva coxa de pavão
Sua boca
         Nectarina
Cuja poupa
         No canto da boca
Lagrima
Seus olhos
         Dragas
Sua pele de dunas
         De finas areias
                 De lendas e praias
Seu organismo
         Prostado
Derrubado
         Como a estátua de Lênin
                   Em Petrogrado

Voou embora
Meu fim da história
E eu sei
         Sei muito bem
                   Tenho certeza
Aonde este inseto asqueroso
Esta mosca nojenta
Aonde ela vai
         Pra onde ela foje
Passou Antonina
O Oceano Atlântico
O Continente Africano
A península Arábica
Depois da Indonésia
        Lá, nos confins
Nos mais longínquos dos ermos sem fim

A borboleta se foi
Pro outro lado do mundo

Agora
Ela bate suave
Com dolo
         E malícia
Suas asas macias de inseto
Sabendo
         Ao certo
O que me espera

domingo, 11 de novembro de 2012

Era uma vez a bicicleta
Veloz
Aro de arame
Passara
(Facho)
Biciclera-se
Ladeira abaixo

domingo, 14 de outubro de 2012

O Rato Rico

Os ratos se rolam
De rir de você
Os ricos devoram as migalhas nos pratos
Nas latas de lixo, eles roem os pedaços
Ricos rateiam minutos na TV

Rico
Rato
Rico
Rato
O rei está pelado
Roma está em chamas
Ratazanas na TV