quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Como pode?

Como podem
Falar de fumaça
Quando meu peito
Carece de ar
Como pode o vento apagar
Varrer a areia
Levar as flores
Como podem fumar
Seus charutos
Quando mal aspiro
Este ar rarefeito

Fundo
Bem fundo
Sob a campa d’imbuia
Nos brônquios
Arfo fundo
Como um chorão
Que dorme alheio à luz

Como pode a luz
Anunciar o Sol
Quando a noite
É eterna
No lavabo subterrâneo
Como podem cofiar
Seus volumosos buços
Levantar seus braços
Enquanto outros
Carregam no esquife
Uma senhora
Tão menina

Como tão fundo
Aquele metro e meio
O ar tão rarefeito
Pesada a cabeça

O poder de dispor
De transportar para a ponta dos dedos
Todo o peso do corpo
O poder de cair
Uma ultima vez

Como pode uma senhora
Ser tão menina?

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Bebedouro



No poço dos tropeiros
Onde os cavalos lavavam dos focinhos
O sangue negro dos índios
Ainda deita
Certa transitoriedade

Em cada pedra de calço
Daquela parte da cidade
Existe uma gota salgada
Que argamassa o pavimento
Em cada bloco
Um chicote
Uma palavra
Uma oração
Um sofrimento

Ladainham o pai nosso
Dez ave marias
Depois de pelar a pele
De um bem que então fugia

No poço dos tropeiros
As pedras ainda se pisam
E se divisam no alumínio
Esfumaçando à rachaduras

Ainda deita
No poço
Um quê de passagem

As pombas diuturnas que infectam sua água
De noite bicam as migalhas
Dos ecos da madrugada

Mas na mocidade da noite
Mulher incorpora o espírito bandeirante
E no meio dos bares
Em cima do tanque

Raspa seus próprios pelos
Como se arranhasse as pernas de sangue

Pura verdade
As putas ainda tem a mesma vaidade

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

do pão ao pó
da pança à pompa
Sancho pensa com sua sancha pança
amança Pancho
sua imensa ânsia
do pó ao pó
que do pão a herança
é valeta-ventre
é voluto-vale
é voraz vingança

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Ninguém beija com os olhos abertos
Beijar
    É como cheirar

Doce perfume das flores da estação
    O aroma do mato
O cheiro da chuva

Mas beijos também fedem podre
E
    Às vezes
Odor algum possuem

Fungada no pé do ouvido
Goza mais
Que mil beijos de desejo traído

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Patético Artifício

Apenas um desvio eu tenho
Do dogma vegetariano
Desejo insasciável que saliva minha boca

Não provo os peixes
Não gosto de picanha
Minha tentação maldita
É a salgada carne humana

Fibras
Colágeno
Músculos tenros de potros exercitados
Sangue que borbulha nas fendas dos dentes
Baba suculenta de suco que escorre pelo queixo

Na viagem pra Copacabana
Uma coxinha vegana
Na aduana
Me pararam
Com uma costela de barro

Chego a acreditar que o meu vegetarianismo
Não passa do patético artifício
De prolongar a abstinência
Estratégia pra aumentar a sensação do gozo
Quando mastigo com nojo o pescoço de uma novilha

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Todo grande amor
Deixa de ser grande quando acaba

Provei do ópio da tua boca
E na teia dos teus olhos me prendi
Foi meu fim

Agora nem mais sei o que te digo
Mas digo
Insisto

Desiste do amor grande que eu te quero
E deixa meu amor
Que é tão pequeno
Te abraçar

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Mistério-Lua

O astro
     Infinito
Revolta o eixo terrestre
A cara fixa
Mirada vesga
Há centanos
     Milênios
Olhando
     E olhando
E nada dizendo

Os humanos
Perguntando
     Das coisas lá do céu
Mitos e lendas
Equações e teoremas
E
     Mais
Navios espaciais
Pro mistério lunar
Cósmica intriga

- Por que a mesma cara?

Mas pobres dos macacos
Que pendem dos livros pelo rabo

Não é da lua o segredo:
      O que há no nosso globo que cativa o eterno engenho?

Enigma

Pra mim o seu olhar
      No fundo
Me faz rodar
      Em volta do mundo