sábado, 5 de novembro de 2016

Justiça

Esta é a justiça 
numa estátua de Erbo Stenzel:
Sedutora e Oblíqua,
promete e não entrega.
Prostrada, controla.
De lado, procura.
Conhece o furor do estupro.
Enfrenta, protege,
a si ante outros sedentos.
Escrava dos homens brutos.
Exprime o trauma de dentro
nos olhos que tudo atracam,
na tranca de seus redutos,
nos seios estuporados,
na prontidão sem pecados,
na projeção sem futuro.
Esta é a justiça
numa estátua paranaense.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Fraqueza

Sinceridade não é sinal de fraqueza

Fechar-se em si mesma
Não pensar pra não mentir
Mentir pra depois pensar
É pura debilidade

Reconcilia-se com a verdade

Eu não me escondo
Mas o mundo não perdoa
Ser o espelho do outro
O mundo não aceita
A ausência do jogo

O segredo azeita
O uso do gozo

domingo, 21 de agosto de 2016

Angústia

É mais difícil amar ou ser amado?
Amar é escolher ou é deixar?
      Quem ousa, usa
Amor é luxo ou necessidade?
Vício ou placebo?

É por medo, não por vergonha,
     que não choro
Olho pra cima e vejo uma estrela entre a fresta da cortina
     no centro da cidade armada
Penso no impeachment, na polícia
enquanto uma mulher com câncer assiste um jogo de vôlei
É duro ser suave
     Mas mais leve
     se sólido fosse

É a fé que faz parte do amor?
Ou o amor que compõe a fé?
Amar é desistir?
     Ou acreditar?
Quem usa,
     ousa.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Respeito o Mar


Respeito o mar
Como um branco a polícia
Uma mulher o ginecologista
Ou o agricultor respeita o INSS
Como um astronauta

Ouço seu barulho inicial de cascata semovente
E seu finalmente
Crepitar de espuma
Óleo fervente que frita
Morrendo na areia da praia

Respeito

Olho pro pedacinho de maré
Que oscila
Ora o alcança a água
Ora lhe foge

Quantos copos de líquido ali não cabem
Quantos palmas em concha
Quantas tigelas
E baldes, mil baldes
E mais
Muito mais
Quantas cisternas
Caminhões-pipa
E toda a água infinda desse abismo salobre

Se cada litro de água
Que diviso nesse ponto pequeno
Fosse um grão de areia
Faltariam praias
Faltaria areia

O cão se joga no oceano e nada tranquilo
Nossa prima, a baleia, não vive fora do ambiente aquático
E quantas Joanas não choraram por seus filhos
Tragados ainda crianças por Netuno ou Iemanjá?

Respeito
Como um paraquedista
Como um bandido sua vítima
Respeito o mar

terça-feira, 30 de junho de 2015

Café da Tarde

Quando bebo café
Não constrinjo os lábios
Beijo a xícara
Em homenagem a essa droga ancestral
Fumo um cigarro
Como se mamasse um seio
Do mesmo jeito que a seiva
Suga da terra os nutrientes
E se
Condoído em um leito
Engulo pílulas e comprimidos
Devoro-os
Tal postos
De uma caça sagrada

O amor
A família
E a medicina
Não passam de humanas criações
A desilusão
O rompimento
A morte
Seus inescapáveis resultados

Como o animal que mata
A flor que brota
E o trovão que relampeja
Eu sou gente
E gente sou
Porque bebo
Porque Fumo
E me entorpeço
E chapo

Aprecio
O aroma do café torrado
E o cheiro nauseante do tabaco

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Agir no não

Nada faço eu agora, só sentir.
Fácil ficar parado e só olhando.
Acho que quando levo minha boca,
Minhas mãos, a voz rouca – não agi

Nem preto nem o branco, nem escuro
Nem o claro, nem o muro, nem oito
Nem oitenta. Na vida não existe
Câmera lenta ou passo atrás, eu vi.

Mas, eu piso de novo o mesmo ovo.
Eu temo, eu gosto, eu choro, eu danço, sim!
Como eu danço! E minha alma enche.

E novamente, de repente, eu – bobo –
Me lanço à tempestade; para em mim
Cair - um risco! - o raio dos prazeres.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Gravidade Zero

A massa atrai a massa
A matéria cai sobra a matéria
O universo pesa
Suas botas
Esmagando a nossa testa

Nosso amor foi fácil
Como cair

O universo nos pesa os ombros
     Mas quando se cai
A gravidade é zero
Tudo contigo despenca
E nada é certo

Olha pra cima, amor, e contempla

As estrelas não estão pra iluminar o paço

Estão pra dar beleza ao nosso espaço